Amazônia:
do gênesis ao apocalipse.

Irineu Barreto

I.Os homens comandam o rio

            Na Amazônia, a moto-serra não serve apenas para derrubar árvores. “Conduz teu carro e teu arado sobre os ossos dos mortos” é um dos provérbios do inferno mais posto em prática na “floresta urbanizada”. Porém, se há um inferno, ele não é apenas verde. Os demônios não seriam verdadeiros pintores. O inferno não pode ser apenas verde, de acordo com um outro provérbio segundo o qual “o tolo não vê a mesma árvore que o sábio”.    

            Na Amazônia, o rio não é considerado apenas como fonte de vida – o rio que comanda a vida, na expressão de Leandro Tocantins1 - ele é também o depósito de tudo o que a sociedade rejeita e do que ela destrói. Inclusive dos restos humanos,2 no grau mais extremo de desumanidade. Mas seja de modo contínuo, ou concebido como um processo de evolução por estágios qualitativamente diversos, as relações desumanas com o ambiente, meio ou fim, são parte da estrutura social amazônica.

            Deixemos bem claro que por relações desumanas com o ambiente entendemos o uso e a exploração dos recursos naturais conforme um paradigma (modelo) científico de submissão da natureza ao homem, apoiado em representação social3 equivalente. Esse modelo e essa representação não consideram que a natureza é um fim para si mesma, logo pretendem destituí-la de sua liberdade, que é a sua própria essência. 4 Do ponto de vista econômico, tal desconsideração pela liberdade da natureza está bem expressa em Ab’Sáber: “As chamadas classes produtoras vêem na natureza apenas os recursos que interessam ao tipo de atividades a que se dedicam(...) comportando-se com uma insensibilidade plena em relação à predação dos componentes que se encontravam em combinações integradas no meio ambiente”.5 Tal conceito permite a compreensão de ampla gama de fatos sociais e fenômenos culturais característicos da região amazônica – não apenas dela, é óbvio - que são interpretados socialmente de acordo com aquele paradigma e aquela representação social. Um dos fatos sociais recorrentes na história da Amazônia, desde a época colonial, é o processo de destituição da liberdade humana como meio de exploração dos recursos naturais. A degradação da natureza é associada à degradação do ser humano. Ou seja, à escravização.

            No século XVII, no Estado do Maranhão e Grão-Pará, divisão administrativa estabelecida pela Coroa Portuguesa para a colonização do Norte do Brasil, “a vida dos moradores estava apoiada no trabalho escravo dos índios”.6 O padre Antônio Vieira, que vivenciou o cenário amazônico daquela época, e que defendeu os índios “contra os abusos dos senhores”,7 dá-nos o testemunho da dinâmica das relações entre colonos, nativos, e meio ambiente:

            Todos os índios deste Estado, ou são os que vos servem como escravos, ou os que moram nas aldeias do el –rei como livres, ou os que vivem no sertão em sua natural, e ainda maior liberdade (grifo nosso): os quais por esses rios (grifo nosso) se vão comprar ou resgatar(como dizem) dando o piedoso nome de resgate a uma venda tão forçada e violenta, que talvez se faz com a pistola nos peitos. 8

            Ao argumento dos colonos segundo o qual sem a escravização dos nativos, a sociedade não teria como produzir os bens necessários à sua subsistência, o padre Vieira propõe que os próprios colonos trabalhem para sobreviver e sair da pobreza em que se encontram:

            (...) Quem nos há de ir buscar um pote de água, ou um feixe de lenha? Quem nos há de fazer duas covas de mandioca? Hão de ir nossas mulheres? Hão de ir nossos filhos?(...) digo que sim, e torno a dizer que sim que vós, que vossas mulheres, que vossos filhos, e que todos nós nos sustentássemos dos nossos braços, porque melhor é sustentar do suor próprio que do sangue alheio. 9

             Até a segunda metade do século XIX, a região amazônica, de economia baseada no extrativismo das especiarias da floresta, mantém-se restrita a um papel secundário no conjunto das atividades econômicas brasileiras.10 Esta base econômica conferia à Amazônia, dentro do contexto da empresa colonial, um conjunto de características ímpares.11    Enfatizemos, todavia, que se os produtos – o cravo, a canela, a castanha, a salsaparrilha, o cacau, a madeira, a tartaruga e o peixe-boi12 - e o modo de vida e trabalho são particulares de uma região, o processo todo estava subordinado ao sistema de comércio de exportação. Mas o que isso significa?

             Se, do ponto de vista econômico, a exploração dos recursos naturais da Amazônia, durante o período colonial e nas décadas seguintes à Independência, apresentou “resultados parcos”, de “expressão comercial mínima e em quantidades restritas”, segundo Prado Júnior, seu impacto sobre o meio ambiente e a população nativa não foi nada desprezível. Ao expor a importância da pesca na Amazônia, Prado Júnior informa que:

            Mais frequentemente contudo, e mais importantes, são os pesqueiros fixos, que às vezes atingem grande vulto, como o maior de todos, o do Lago Grande de Vila Franca, na atual cidade deste nome, onde em dois anos se mataram só de tartarugas e peixes-bois, 8500 exemplares.13

            O estudioso e os leitores de modo geral devem ter em mente que determinadas visões da Amazônia expressas pelos clássicos de nossas ciências sociais e de nossa literatura, se inserem em um contexto de comparação estritamente econômica – modos de produção, renda total, etc. - entre as diversas regiões e sub-regiões brasileiras. É nesse contexto que se pode entender a idéia de que na Amazônia “o Homem se amesquinha. A luta requer esforços quase ilimitados, se quiser ir além da dócil submissão às contingências naturais”. 14 A matança de tartarugas e peixes-bois subordinada à empresa colonial não nos parece indicar uma “dócil submissão às contingências naturais”.  

            Quando, ao final do século XIX, o Brasil começa a receber grande número de imigrantes europeus para o trabalho nas lavouras cafeeiras, dando início ao processo de modernização das relações de trabalho no país e, posteriormente, à industrialização concentrada no sudeste, a Amazônia, em função da exploração da borracha, matéria-prima da floresta, conhece o influxo de trabalhadores nordestinos, mão-de-obra nos seringais. Eram as vítimas do “desequilíbrio estrutural” da economia do Nordeste aliado ao flagelo da seca.15 Comparando a situação do imigrante nordestino na Amazônia à do imigrante europeu no sudeste, Furtado enfatiza as condições desumanas às quais se sujeitavam os futuros seringueiros:

            A situação do nordestino era bem diversa: começava sempre a trabalhar endividado, pois via de regra obrigavam-no a reembolsar os gastos com a totalidade ou parte da viagem, com os instrumentos de trabalho, e outras despesas de instalação. Para alimentar-se dependia do suprimento que, em regime de estrito monopólio, realizava o mesmo empresário com o qual estava endividado e que lhe comprava o produto. As grandes distâncias e a precariedade de sua situação financeira reduziam-no a um regime de servidão.16

            “O seringueiro – escreve Euclides da Cunha – realiza uma tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se”.17

            O seringueiro submetia-se às degradantes condições de trabalho, dentro de um sistema que subsumia o meio ambiente amazônico à indústria capitalista.

            O boom econômico vivido pela região entre 1870-1910 provocou transformações sociais e culturais nas capitais do Pará e do Amazonas, em função do desejo das elites de imitarem o estilo de vida europeu:

            (...) a cidade de Belém do Pará, apresentaria assim, a partir da segunda metade do século XIX, tentativas de adaptação aos modernos costumes europeus, num profundo contraste com a realidade amazônica, além das tensões sociais geradas por uma nova ordem social capitalista emergente.18 

            Manaus, por sua vez, era conhecida como a “Paris da Floresta” no começo do século passado. 

            Do que dispunha o seringueiro para seu trabalho de servidão na floresta? Já bem avançado o século XX, durante e depois da “Batalha da Borracha”, a situação era praticamente a mesma que a do final do século XIX.19

            Na Belém da Belle-Époque, os grupos enriquecidos com a exploração dos seringueiros e da floresta desfrutavam de um estilo de vida que de “amazônico” tinha somente a origem dos seus lucros:

            Para seu entretenimento, mandavam buscar companhias artísticas na França, em Portugal e Rio de Janeiro, que fizeram época no Teatro da Paz. Calcula-se que de fevereiro a dezembro de 1878, foram apresentados no Teatro, aproximadamente 126 espetáculos. Em decorrência desse vaudeville, surgem inúmeras casas de diversões, como Café Chic, Café da Paz(local preferido de reuniões para discussão política ), Moulin Rouge, Chat Noir, Café Madri e Café Riche, este último considerado um dos principais centros da sociedade paraense(...) os “coronéis da borracha” davam-se ao prazer de ter suas cocottes(prostitutas de luxo), muitas delas européias(...) freqüentadoras das sessões das sextas-feiras do Cinema Olímpia onde exibiam os vestidos luxuosos que mandavam buscar na Europa e jóias da Casa Krause. Os “coronéis da borracha”, embora dependentes financeiramente de Londres e Estados Unidos, estavam culturalmente ligados a Paris, uma das cidades-pólos da Belle-Époque, cidade símbolo da fase áurea da modernidade. 20

            Esta longa citação nos parece necessária para a compreensão da idéia de relações desumanas com o ambiente, que engloba as relações entre grupos humanos.  Aos elementos da exploração da natureza e do homem, soma-se um elemento cultural muito importante: a diferenciação radical entre os modos de vida das diversas classes sociais que vivem da mesma base econômica, mas com papéis e poderes contrastantes entre si. O conflito entre modos de vida tão profundamente desiguais do ponto de vista econômico, pode se voltar contra o seu próprio substrato. Mas a manutenção do sistema como um todo depende de uma série de fatores, tanto endógenos quanto exógenos. A divisão entre as classes pode levar às lutas por reformas dentro da própria sociedade e/ou o sistema capitalista pode se transformar em seus principais pólos, causando uma desestruturação de uma economia dependente desses pólos.  

            Na dimensão cultural, o fausto da borracha consistiu num “processo comparativo depreciador da cultura local”, segundo Paes Loureiro, nele se originando “concepções estigmatizadoras da cultura local, vista como inferior, primitiva e ‘folclórica’, tendo o folclore, nesse caso, o sentido rebaixado de cultura primária, superficial e puramente lúdica.rica, tendo imitiva e ' cooor da cultura local"”21

            No caso das relações das cidades amazônicas com o rio, em particular nos grandes núcleos urbanos, a histórica desigualdade social responde pelo uso majoritariamente privado da orla, e pela degradação do ambiente hídrico porque o rio, e as áreas alagadas, são negados pelas elites regionais pela sua caracterização como ambiente de moradia e trabalho das populações nativas. 22

            A elite, porém, não desempenha um papel de simples negação da realidade local. Alguns de seus representantes mais sensíveis, envolvidos em lutas sociais, políticas e culturais ao lado das classes populares, conseguem expressar, às vezes, por meio da poesia e da ficção, as grandes contradições da sociedade amazônica:

                       A cidade apartada não pode ver o rio.
                       como uma casa fechada em busca de si mesma,
                       por entre as cinzas de um altar em chamas.
                       uma casa latejando de memórias.
                       Como um rosto sem face
                       a cidade obstruída não pode ver o rio.
                       Como um ventre infecundo
                       lacrado em seu inútil desespero,
                       não pode conceber o amor do rio.23

 

             II. Da “Terra sem História” à história de uma sociedade

            O processo contemporâneo de exploração econômica que começa a ocorrer na Amazônia brasileira a partir dos anos 60, e que gerou tantos conflitos sociais e degradação ambiental, tem, do ponto de vista histórico, uma importância crucial: fez com que a região passasse a ser vista e pensada como sociedade histórica, não mais como a “terra sem história”, um espaço da natureza hostil ao ser humano, no qual o mesmo ocupava um papel secundário, submisso à ordem natural, no seio de uma ordem social tradicional. Os amazônidas, os brasileiros e as pessoas no mundo todo voltadas para este tema, agora sabem que o que é hostil é o conjunto das relações sociais que compõem em sucessão secular a tessitura da narrativa de uma terra com história.

            Essa mudança de perspectiva em relação à primeira metade do século XX foi muito bem expressa pelo escritor Márcio Souza quando afirmou que a Amazônia, “como prova sua história, é uma região acostumada com o moderno.” E uma das conseqüências mais positivas desta nova perspectiva é a possibilidade de construir na região “outras formas de relações e instituições interpessoais”. 24

            Mas um acréscimo essencial precisa ser feito às ciências sociais nesta primeira década do século XXI. Ao contrário do que pensava, por exemplo, Norbert Elias no final dos anos 30, as ciências sociais precisam levar em conta, nas análises das transformações sócio-históricas, as mudanças do clima, pois o que têm se alterado não é apenas “o ambiente que as pessoas formam umas para as outras”. 25

            Nas primeiras décadas do século XX, em primeiro lugar estabelecia-se a análise das condições ambientais amazônicas como elementos que se impunham às populações da região. A ciência, de cunho positivista, era complementada por uma representação social que “ancorava” a estranha e perturbadora Amazônia nas imagens familiares da cultura ocidental. 26 E nem sempre ocidental no sentido de oriundo de sociedades da Europa ocidental, pois há relações entre o discurso sobre a natureza amazônica elaborado por europeus e brasileiros e mitologias indígenas da região.

            Werner Herzog inicia sua narrativa sobre a Amazônia da Belle Époque, em Fitzcarraldo, com uma referencia a um mito indígena que denomina a região como “a terra onde Deus não terminou a criação”. Segundo tal crença, somente após a extinção do Homem, a Divindade retornaria a fim de concluir sua obra... Em 1904, Euclides da Cunha publica Contrastes e Confrontos, livro no qual se encontram relatos de sua experiência na Amazônia, que revela a estreita correspondência entre ciência e representação social: Euclides da Cunha supera a experiência frustrante de encontrar na Amazônia uma paisagem “tão desnuda e monótona” somente após a leitura de uma monografia produzida pelo botânico Dr. Jacques Huber, pesquisador no Museu do Pará (atual Museu Emílio Goeldi):

            Deleitreei-me a noite toda: e na antemanhã do outro dia – um daqueles glorious days de que nos fala Bates, subi para o convés, de onde, com os olhos ardidos da insônia, vi, pela primeira vez, o Amazonas...

            Salteou-me, afinal, a comoção que eu não sentira. A própria superfície lisa e barrenta era mui outra. Porque o que se me abria às vistas desatadas, naquele excesso de céus por cima de um excesso de águas, lembrava(ainda incompleta e escrevendo-se maravilhosamente) uma página inédita e contemporânea do Gênesis.

            Compreendi o ingênuo anelo de Cristóvão da Cunha: o grande rio devera nascer no Paraíso... 27

            Na mitologia judaico-cristã, o homem surge como criação divina dentro de um “paraíso de delícias”, também criado por Deus. Mas a experiência do ser humano no paraíso é trágica: o primeiro homem e a primeira mulher acabam sendo expulsos do paraíso das delícias. O homem não cultivara, não guardara a terra das maravilhas com a devida fidelidade aos princípios divinos. Enfim, a narrativa sobre o ser humano vivendo em perfeita harmonia com o ambiente é tão breve na Bíblia que a cultura judaico-cristã tinha que imaginar o paraíso com mais detalhes, e ela o fez de inúmeras formas ao longo de milhares de anos.

            Permanece, porém, a imagem do Paraíso como uma terra sem história, pois dele o homem foi expulso sem que houvesse tempo de fazer a história. E mantém-se, como representação religiosa e social a imagem ambígua do Paraíso: o lugar que não pertence ao homem, lugar ao qual o homem não pertence; também destino futuro do homem. O Paraíso é a utopia absoluta. 

            É nesta representação social que, em parte, Euclides da Cunha ancorou a sua imagem da Amazônia. E dela deriva o papel do ser humano na região:

            A impressão dominante que tive, e talvez correspondente a uma verdade positiva, é esta: o homem ali, é ainda um intruso impertinente. Chegou sem ser esperado nem querido – quando a natureza ainda estava arrumando seu mais vasto e luxuoso salão. E encontrou uma opulenta desordem... 28

            O intruso logo passa a adversário da natureza – numa sutil correspondência com o pretenso cultivador que, por não saber cultivar, acaba sendo expulso:

            Aquela natureza, soberana e brutal, em pleno expandir de suas energias, é uma adversária do homem.

            (...) Daí, em grande parte, a paralisia completa das gentes que ali vagam, há três séculos, numa agitação tumultuária e estéril.29

            Como fazer história, estando paralisado? E que valor pode ter para o país, para o Estado que em breve ver-se-á como um instrumento de modernização, gentes paralisadas, ou nômades, que não cultivam, que não ocupam a terra permanentemente, ocupação que é o pressuposto da soberania do Estado sobre o território?

           
III. Da sociedade histórica ao fim da história amazônica: apocalipse now?

                        Esta sociedade histórica, ou melhor, sua representação predominantemente histórica, tem como fonte o acelerado processo de tentativa de consolidação de um modelo de modernização iniciado nos anos 60 que gerou, juntamente com os grandes projetos, os enormes problemas ambientais e sociais. Na concepção dos sucessivos governos militares, a região amazônica, ainda representada, convenientemente, como a - histórica, é considerada um “espaço vazio” e improdutivo, um espaço a ser explorado em seus recursos pelas “classes produtoras”, empresas nacionais e multinacionais, o Estado. Dava-se início a um novo ciclo de crescimento econômico na região, hoje caracterizada pelos economistas como região que alterna ciclos de boom e colapso. Segundo Furniel:

            “A ocupação da Amazônia, a partir da década de 70, faz parte de um projeto geopolítico da elite dirigente do país para superar o subdesenvolvimento”.30

            Considerada a partir de então uma “fronteira de recursos mundial”, a Amazônia brasileira se constitui num espaço de exploração de seus recursos por um pequeno número de grandes empresas, com apoio político e financeiro do Estado, visando à produção para o mercado externo. O investimento do Estado e da iniciativa privada, do capital internacional, em grandes projetos de mineração gerou um intenso movimento migratório para a Amazônia, transformando-a numa das áreas de maior tensão social e degradação ambiental. O avanço das frentes pecuária e madeireira produziu devastação florestal e conflitos pela posse da terra.  Gerou também um crescimento econômico notável: 4,2% ao ano, em média, entre 1960-1996, enquanto o Brasil crescia 2,8%, em termos de PIB per capita.  E mais notável ainda é o fato de que em 1990, na Amazônia Legal, 45% da população encontravam-se abaixo da linha da pobreza extrema. A mesma porcentagem em 2005. E 35% dos amazônidas vivem em situação de “insegurança alimentar”. 31

            Quando não são escravizados, quando não são perseguidos e assassinados em conflitos agrários, os trabalhadores vinculados aos setores que exploram os recursos naturais, muitas vezes se sujeitam a condições de trabalho desumanas. Segundo a socióloga Edna Castro:

            Sob um discurso do progresso, usinas do Programa Grande Carajás reproduzem condições subumanas no mundo do trabalho na Amazônia.32
  
            E mais:

            O discurso ambientalista oficial obscurece que é impossível frear a degradação ambiental sem oferecer solução aos graves problemas sociais enfrentados no cotidiano das populações regionais. 33

            A Companhia Vale do Rio Doce, de acordo com as investigações do jornalista Lúcio Flávio Pinto, “desrespeita os direitos do trabalhador”:

            Das 23 mil pessoas que trabalham atualmente em Carajás, apenas 10% é de contratados diretamente pela CVRD. Mais de 20 mil trabalhadores foram recrutados por 175 empreiteiros, que terceirizaram a maior parte dos serviços, sobretudo os mais pesados e menos qualificados. Há turnos de seis, oito e 12 horas. Os intervalos para descanso e convivência familiar ficam ainda mais reduzidos porque os empregados perdem de duas a quatro horas indo ou voltando para suas casas. A distância, no caso dos que moram fora do núcleo residencial de Carajás, passa de 30 quilômetros.

            Para a Vale, o cenário é como se fosse de uma cidade comum. Por isso, se recusa a pagar o trajeto como hora extra de trabalho. Esse é o principal motivo de mais de 90% das 8 mil reclamações protocoladas na 1ª vara da justiça trabalhista de Parauapebas nos últimos 18 meses (o congestionamento já provocou a criação de uma segunda vara para o município).34

            Os sociólogos e historiadores da região amazônica já mostraram, mas é bom lembrar: os operários e trabalhadores em geral, ligados aos setores de exploração dos recursos naturais trabalham em péssimas condições, são mal-remunerados, e vivem nas periferias que não dispõem de coleta de lixo, não contam com sistema de esgoto, sendo obrigados a conviver de perto com a imundície e a poluição.  É bom lembrar também que os piores índices no que diz respeito à situação do esgotamento sanitário nas grandes cidades brasileiras são apresentados por Belém, Manaus e Rio Branco. 35

            Ao citar a situação desses trabalhadores, as imagens que o autor tem em mente são as do cotidiano das Marias da Castanha, as operárias protagonistas do filme de Edna Castro. Mães solteiras, cheias de filhos para criar com o salário mínimo – isso no caso de alcançarem a produção exigida pelo patrão. Desempregadas entre uma safra e outra da castanha, elas viram empregadas domésticas, costureiras, ou “caem na vida” para se sustentarem até seu retorno à fábrica.

            E aquelas “marias” me recordam de uma em particular, a Maria de todos os rios, personagem do romance homônimo do escritor Benedicto Monteiro.

            O romance é uma fábula sobre a Amazônia em processo de modernização, momento histórico vivido e narrado por uma mulher chamada Maria. A modernidade está expressa desde as primeiras linhas do romance, pois Maria narra suas aventuras para uma socióloga, que não é propriamente uma interlocutora da protagonista, é mais um símbolo das atenções que a Amazônia começa a despertar na segunda metade dos anos 80, desencadeando uma série de estudos acadêmicos sobre as sociedades regionais, particularmente de seus conflitos socioambientais. 

            A trajetória dessa mulher amazônica inicia de maneira dramática por um acontecimento traumático: a morte da mãe de Maria. O leitor depois percebe que a morte da genitora equivale, na ficção, a um segundo nascimento para a filha, porque é  a partir daquele falecimento que Maria se vê, de súbito, sozinha no mundo, ou melhor, na Vila da Barca, em Belém. Seu único irmão, Raimundo, vive embrenhado na floresta derrubando árvores.

            O segundo nascimento de Maria, às avessas, se caracteriza, ao contrário do nascimento biológico, pela introspecção absoluta, pelo “chorar para dentro”:

            “E como sempre eu fazia, me acomodei num canto. E mais que me engasgava com aquele chorar manso, entrecortado de um grito surdo que explodia por dentro de mim. Mas não saía pra fora. Era assim como se eu fosse ter um filho às avessas.” 36

            Ter “um filho às avessas” é a expressão que revela ao leitor, e oculta da consciência da personagem, que é ela própria que está sendo parida às avessas nas primeiras páginas do romance. 

            A trajetória de Raimundo, irmão de Maria, também representa, de maneira singular, individual, um caminho coletivo, trilhado por inúmeros amazônidas e brasileiros ao longo das últimas décadas de modernização da região. Raimundo passou a infância perto do rio e da mata, atravessando mangues e igapós em sua montaria. A floresta

            “Ele conhecia palmo a palmo: pau por pau, vereda por vereda.” 37


            O conhecimento da floresta, adquirido na infância, Raimundo utilizaria anos mais tarde em seu serviço de motosserista em uma fazenda. O jovem que, segundo Maria, amava as árvores, que falava destas “como se fosse de pessoas que ele encontrasse nessas distâncias”, finda seus dias embriagando-se com cachaça e derrubando árvores:

            “Bebia paresque para derrubar as árvores que ele tanto gostava.” 38

            O motosserista morre esmagado por uma árvore, e seu corpo talvez “tenha virado fogo na queima do roçado”, pensa Maria.
            E se o corpo queimou no roçado, Raimundo eleva-se, na ficção, ao plano das personagens que são imoladas em nome de uma crença, de um valor maior que a ganância.

            Com a perda dos parentes mais próximos, Maria tem que começar a sobreviver por conta própria. “O que restava – diz ela – era eu mesma com a minha ignorância e a minha mocidade. Aí que eu fiz o inventário dos meus préstimos, o que eu era e o que eu sabia fazer? – cozinhar, lavar, plantar mandioca e cuzicar as minhas roupas. De que valia esse saber ali naquele quarto imprensado e trepado por cima do alagado? Vi que estava sozinha no mundo, só mesmo com meu corpo.”


            Abandonada na beira da estrada, numa “casa de mulheres”, num ambiente em que sua cultura cabocla não lhe permitiria sobreviver, resta a Maria “avaliar seus predicados”, fazer o “inventário” da sua carne, enfim, pôr à venda seu “corpo de morena clara e olhos gateados”. 

            Depois de certo tempo vivendo como meretriz de beira de estrada, Maria decide “procurar outro rumo na vida”. Dirige-se à rodoviária com o objetivo de entrar num ônibus que a levasse para muito longe. Então:

            “A Transamazônica, me lembrei; sempre ouvia falar que a Transamazônica ficava nos confins do mundo. Olhei as escalas que estavam marcadas na agência: Marabá, Altamira e Itaituba. Escolhi logo Itaituba. Era um nome que eu nunca tinha ouvido paresque.”

            Maria, porém, não chega a Itaituba porque, no meio da viagem, conhece um homem que lhe fala sobre o garimpo de Serra Pelada:

            “Lá corria ouro, ele dizia, ouro vivo que o pessoal mesmo catava no chão bruto.”

            Impossibilitada de entrar no garimpo, Maria se fixa na Vila de Curionópolis. A cidade é dominada pela figura do major Curió

            “(...) que mandava na Serra Pelada por ordem do Presidente da República. Ele mandava e desmandava. Na serra, ele mandava prender, surrar, expulsar e raspar os cabelos, quando eram ladrões ou veados”.

            A experiência de Maria em Curionópolis é uma expressão da ausência do poder estatal na região, fenômeno político e social que tem sido reiteradamente denunciado por cientistas, jornalistas e líderes de movimentos sociais:   

            Naquele pedaço, esse tal de major Curió, mandava mais que o Governador do Estado, e que o Prefeito do Município. Ele era um major do Exército. Disque ele era do Serviço Secreto. Ele tinha sido o maior combatente contra as guerrilhas do Araguaia. A guerrilha dos comunistas. 39

            Maria de todos os rios é também de todos os homens - garimpeiros, grileiros, trabalhadores do Projeto Carajás:

            Por causa da minha fama de olhos verdes, eu sempre conseguia uma freguesia mais selecionada. Mira( a dona da boate ) mesmo se encarregava de me tornar difícil. Ela dizia que assim eu ficava mais desejada. Quando ela sentia que o cara tinha dinheiro ela cobrava uma taxa extra. 40

            Prostituta, testemunha de crimes, relacionada com policiais e bandidos, Maria acumula ouro e dinheiro suficiente para mudar-se de vez do Pará. Quando percebe que a mina de Serra Pelada “não tinha mais futuro”, ela escolhe o Rio de Janeiro para recomeçar a vida. Agora, como ela diz, “uma mulher respeitável”, instala-se em um hotel em Copacabana. Torna-se “proprietária de academia de dança, ginástica aeróbica e de massagens unissex”. E muda o nome para Marily, por sugestão de uma numerologista e por achar o novo nome “mais de acordo com o Rio de Janeiro”.   

            A Amazônia de sua experiência e narrativa é um monte de corpos de machos que a exploraram e que ela também explorou, econômica e eroticamente; é o ouro que fez dela empresária bem sucedida no Rio de Janeiro; é imensidão de água e grandeza de verdes espalhados. Maria ou Marily, qual das duas é a mulher que se identifica, ao final do romance, com o mito das amazonas?

            As amazonas representam para mim, a liberdade. São as únicas mulheres guerreiras do mundo. Livres e independentes(...) já imaginou a praia de Copacabana cheia de cavalos, montados por mulheres? Pois eu acho que consigo ver assim também, as minhas amazonas. 41

            Ambas, talvez. A Maria que “cavalgou” do Pará até o Rio de Janeiro, é a Marily que desfila por Copacabana, orgulhosa de sua liberdade e independência. Mas envergonhada de sua origem pobre e de sua vida de meretrício.

            É uma amazona que tem vergonha do seu cavalo.


IV. Réquiem para uma Floresta

            2003. Sudeste do Pará. Uma quadrilha de ladrões de gado e madeira, liderada por “Nego Vil”, invade uma fazenda, rouba e espanca impiedosamente os moradores do local. Nego Vil, arrasta um vaqueiro até à margem de um igarapé, e, usando uma moto-serra, esquarteja o corpo do vaqueiro. Os pedaços são jogados no rio.

            Parece ser apenas mais um dos inúmeros casos de banditismo comuns na região.  Mas sem deixar de sê-lo, representa algo mais profundo. É a expressão, mais uma vez, daquela associação a qual nos referimos no começo deste ensaio. A destruição da natureza e a destruição física e espiritual da humanidade são dois nós de uma mesma teia. Uma teia que cai feito uma rede sobre a teia da vida, aprisionando-a. A vida debate-se na rede, enquanto seus algozes preparam-se para desferir o golpe mortal.

            Não aprendemos com o materialismo histórico que “as representações e os pensamentos, bem como o intercâmbio espiritual dos homens são emanação direta do seu comportamento material”?

                                                           ***

            Das páginas do Gênesis chegamos, via caminhos da modernidade, ao Apocalipse? Da terra sem história desaguamos no fim da história da Amazônia?

            De acordo com os cientistas, a manutenção do atual “modelo” de exploração - agropecuária, madeireira, associado às queimadas e à mudança no regime de chuvas - levará à destruição de 55% da Amazônia até 2030.

            Uma reedição de Contrastes e Confrontos, de Euclides da Cunha, deve conter uma nota de rodapé informando ao leitor o seguinte:

             No final da “página inédita e contemporânea do Gênesis” foi escrita, com fogo e sangue, a destruição da Amazônia, lamentada na terra, silenciada no céu. O que dá testemunho destas coisas, diz: Sim, venho depressa: Amém.  

Irineu Barreto
Mestre em História Social
Professor de História da Ciência na Universidade do Estado do Pará.

 

  1. Tocantins, Leandro. O Rio comanda a vida: uma interpretação da Amazônia. 8.ed. Rio de Janeiro: Record, 1988.
  2. Em maio de 2007, depois de serem mortos por asfixia, os corpos de dois irmãos da família Novelino foram jogados na baía do Guajará. Após seis dias de busca, o Corpo de Bombeiros localiza o primeiro corpo a 12 metros de profundidade. Havia correntes em volta do pescoço, e o cadáver estava preso a um balde com concreto e a uma âncora.   
  3. Moscovici, Serge. Representações sociais: investigações em psicologia social. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.
  4.  “Em metafísica, a essência, por oposição aos acidentes, constitui o fundo da coisa e torna-a tal qual é.” Durozoi, Gerard. Dicionário de Filosofia. Campinas, SP: Papirus, 1993.  
  5. Ab’Sáber, Aziz Nacib. A Amazônia: Do Discurso à Práxis.  2. ed, SP: Editora da Universidade de São Paulo, 2004, p. 13. 
  6. Paim, Gilberto. A Amazônia de Pombal sob ameaça. Rio de Janeiro: Editorial Escrita, 2006, p. 29.
  7. Verdasca, José (org.). Sermões escolhidos do Padre Antônio Vieira.  Editora Martin Claret, 2003.
  8. Sermão da Primeira Dominga da Quaresma ou das Tentações pregado na cidade de São Luiz do Maranhão em 1653.
  9. Idem. A ironia é que os jesuítas competiam com os colonos e com o poder público pela exploração da mão-de-obra indígena, mas isso não diminui o mérito da exortação cristã.   
  10. Para os propósitos modestos deste ensaio, indicamos ao leitor a consulta a dois clássicos da história econômica, Caio Prado Júnior e Celso Furtado.
  11. Prado Júnior, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia. São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 211. 
  12. Idem.
  13. Prado Júnior, op.cit. p. 215.
  14. Idem, p.212.
  15. Furtado, Celso. Formação Econômica do Brasil. 20.ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1985, p. 133.
  16. Idem, p. 134.
  17. Cunha, Euclides da. Um paraíso perdido: ensaios, estudos e pronunciamentos sobre a Amazônia. 2.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1994, p.36.
  18. Sarges, Maria de Nazaré. Belém: Riquezas produzindo a Belle-Époque(1870-1912). Belém: Paka-Tatu, 2000, p. 23.
  19. Moro, Javier. Fronteiras de Sangue: a saga de Chico Mendes. 1.ed.  São Paulo: Ed. Página Aberta, 1993. O leitor encontrará neste magnífico relato da história de Chico Mendes, detalhes vívidos e impressionantes da vida dos seringueiros na Amazônia.  
  20. Sarges, op.cit, p.55.
  21. Paes Loureiro, João de Jesus. Cultura amazônica: uma poética do imaginário. São Paulo: Escrituras Editora, 2001, pp. 81-82.
  22. Este é o ponto de vista de vários cientistas sociais amazônidas que pode ser conferido no documentário de Jorane Castro, Belém Cidade das Águas. Cabocla Produções.
  23. Paes Loureiro, João de Jesus. Artesão das águas (poesia). Belém: Edições NUAR, 1993, p. 50.
  24. Elias, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1994, p.42.
  25. Elias, Norbert. Op.cit. p.45.
  26. Para uma análise das relações entre ciência e representação social, ver Moscovici, obra citada, capítulo 1.
  27. Cunha, Euclides da. Obra citada, p. 4.
  28. Cunha, Euclides da. Obra citada, p. 26.
  29. Cunha, Euclides da. Obra citada, pp. 34-35.
  30. Furniel, Ana. Amazônia – A ocupação de um espaço: Internacionalização x Soberania Nacional (19601990). Dissertação de Mestrado. PUC – SP, 1993, p.10.
  31. Esses dados foram apresentados pelo ex-governador do Pará, Simão Jatene, durante sua palestra no Simpósio Internacional da Amazônia realizado entre os dias 12 e 14 de junho de 2007 em Belém, Pará.
  32. Fronteira Carajás. Documentário de Edna Castro. Cabocla Produções, Belém, 1991.
  33. Idem.
  34. Flavio Pinto, Lúcio. Jornal Pessoal. Outubro de 2007, 2ª quinzena, nº. 403, ano XXI, p. 2.
  35. Whately, Marussia. Haverá água para todos? Le Monde Diplomatique Brasil, Ano 2, nº. 6, janeiro 2008, p. 4.
  36. Monteiro, Benedicto. Maria de todos os rios.  Belém: CEJUP, 1992, p.12.
  37. Idem, p.8.
  38. Idem, p.10.
  39. Monteiro, Benedicto. Op. Cit. p.39.
  40. Idem, p.44.
  41. Idem, p. 144.