
Fúlvio Abramo |
Depoimento de Fúlvio Abramo
a Lincoln Secco, Marcos Delgado e Sandro Wambier em 1 de fevereiro de 1992
Fúlvio Abramo
"A Família Abramo é originária de duas partes da Itália (da parte do pai é do sul da Itália, da parte da mãe é do norte da Itália). O sul da Itália era considerado quase que uma “Espanha” devido a todo o período espanhol que tinha imprimido as suas características e a muitas coisas da vida social e política. Ao passo que meu avô (que era do norte) estava muito mais ligado com o mundo que era muito mais pleno de idéias. O sul da Itália dava filósofos, o norte dava políticos.
A Itália se unificou devido aos esforços de Mazzini e Garibaldi, não do rei. Não foi a burguesia italiana que não tinha interesse na unidade, quem tinha interesse era o povo que deu apoio a dois revolucionários, porque Mazzini e Garibaldi eram revolucionários ao seu modo, eles fizeram uma revolução nacional que demorou 50 anos para se realizar, mas se realizou e terminou com a conquista da unidade da Itália, dividida desde os tempos bizantinos, da queda do Império Romano.
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O meu avô nasceu em uma cidade do norte da Itália muito próxima da fronteira da Áustria e era um homem que estava profundamente empenhado nos ideais anarquistas que ele conhecia através daquele contato que o norte da Itália tinha com o resto da Europa e com a Alemanha e a França em particular. A Lombardia e o Piemonte, por exemplo, essas duas culturas se fundiram no norte da Itália.
E foram essas duas conjunturas culturais de destaque na Itália que deram “origem” a um lado da nossa família que tem um estilo aristocrático, mas cujo outro lado é popular e revolucionário (anarquista). Apenas o nosso espírito pessoal indicava que nós pertencíamos a outra classe que não a dos trabalhadores. Mas meu avô (que também não era um trabalhador, embora houvesse a lenda de que Bolto Scamagnani era camponês etc., o que não é verdade) era proprietário de terras e naquele tempo proprietário no norte da Itália não era popolo minuto, era popolo maggiore. Mas ele era anarquista tanto que o pai (que era conservador) o expulsou. Foi depois que teve um choque com as autoridades austríacas que ele foi obrigado a abandonar a Itália e vir com toda a família ao Brasil.
Meu pai, ao contrário, é de uma família muito antiga do sul da Itália. Nasceu numa casa que ainda existe (foi construída em 1376). Era a Torre de Torracca que deu nome à cidade. Minhas irmãs quando foram à Itália dormiram na casa. Eu não consegui porque quando passei por lá a cidade ainda não havia sido reconstruída (depois da 2ª Guerra).
Então, meu pai era, digamos assim, da “aristocracia média”, porque já não era rica, mas era ainda uma família de proprietários, tanto que eles importavam desde o começo do século passado, 1820, 1830, importavam do Brasil madeira, tabaco etc. e traziam para cá e traziam ao Brasil.
Foram os negócios dessa firma que meu bisavô tinha (chegaram a um ponto crítico) que obrigaram meu bisavô a mandar meu avô para cá. Meu avô voltou à Europa e foi assassinado, então mandaram meu pai para cá, para ver se arrumava os negócios da firma. Meu pai chegou aqui, viu que não tinha salvação, fechou os negócios e resolveu ficar por aqui. Ele se casou com a filha de um italiano que estava enriquecendo muito com negócios financeiros, bancários etc. Desse primeiro casamento teve uma filha que ainda vive e está com 98 anos em Araraquara. A mãe dele morreu logo depois de dar à luz e a menina foi criada pela família da mãe (meu pai era solteiro e era naquele tempo inconcebível que ele criasse a filha). Então ela foi criada dentro de parâmetros muito conservadores, é [hoje] a mais velha, mas é só parcialmente Abramo, dentro daquele conjunto de “denominadores”.
Depois, então, meu pai se casou com minha mãe, filha desse Bolto Scamagnani, anarquista, que tinha vindo ao Brasil e como não queria empregar-se porque era anarquista, ele começou a fazer biscoitos (não sei porque ele gostava de biscoitos, tinha aprendido com alguém). Teve tanto êxito que ficou em poucos anos rico (em 3 anos ficou rico) porque não havia fábrica de biscoitos naquele tempo. Ele era o único que fazia dezenas de tipos de biscoito, fazia ele mesmo a massa, aquela coisa toda, não tinha empregados e era ajudado por um filho, Olindo. Muitas vezes eu saí com meu avô com sacos grandes de bolachas (que não era pesado) e ia na Avenida Paulista entregar aos fregueses. Eu me lembro muito bem da família que era “dona dos enterros” (naquele tempo era uma firma particular que fazia os enterros, não era a prefeitura), riquíssima e que era o maior freguês do meu avô, comprava muito. E os outros fregueses eram todos da Paulista, que estava cheia de palácios recém-construídos pelos novos-ricos. Ele ficou tão rico que voltou para a Europa, gastou o dinheiro, ficou algum tempo e veio para cá de novo. Aí ficou sem dinheiro e se dedicou aos ideais anarquistas. No Brasil, ele teve uma atividade muito grande, nos sindicatos todos ele participava de uma maneira muito frequente. Discursava. O último discurso dele foi proferido no Largo da Sé em 1932. Ele falava uma mistura do seu dialeto, italiano e português, mas fazia-se entender e era amado por todo mundo. Mesmo nos primeiros comícios em 22, os anarquistas que não souberam ler o noticiário sobre a Revolução de 17 fundaram o Partido Comunista já com uma burocracia que existe até hoje e se rompeu agora com uma parte ao lado do “construtor de cascas de ovo” Niemeyer (demonstrador de total imbecilidade que até hoje não entendeu que o Stalinismo surgiu exatamente para fazer isto que o Gorbatchev fez: entregar a propriedade coletiva da Rússia para a burocracia, transformando-a numa classe dominante, proprietária. Eles não entenderam a essência do Stalinismo). A mesma coisa o PCdoB. Já a outra parte do PC entendeu muito melhor o Stalinismo que até aderiu ao Collor.
Essa coisa toda vem de lá. Talvez os exegetas não tenham se fixado neste ponto que eu considero muito importante: o fato do partido comunista ter surgido como reflexo das informações distorcidas por anarquistas que consideravam que a Revolução Russa era anarquista mostra como era atrasada a ligação do Brasil com o mundo.
O noticiário chegava de uma maneira tão alterada que até pessoas habituadas a tratar dos problemas da Revolução, como os anarquistas, confundiam-se. Esse tipo de informação errônea se compreendia naquele tempo porque não havia o oligopólio da informação como há hoje; não havia essa unidade de classe que tem hoje a imprensa internacional; não havia nem essa unidade de classe e de propriedade dos meios de informação e de cultura (hoje o mundo “pertence” a um oligopólio de rede de informação e de produtores da cultura capitalista). Naquele tempo não era assim, era anárquico mesmo.
Bem, meu avô não acreditou no partido comunista e continuou anarquista, mas se manteve simpático à Revolução. Nesse discurso de 32 ele reafirmou que o movimento comunista de Lênin e Trotski era progressista e não era seu inimigo como pensavam muitos outros anarquistas a exemplo do pai da mulher do Jorge Amado, Gattai. Ela é tão falsa como qualquer stalinista e só diz mentiras sobre o pai dela. Quando houve a Revolução de 17 ele foi imediatamente contra e continuou contra o marxismo de maneira absoluta.
Os anarquistas, como o pai do Lorenzetti, o pai do Calloi, o pai dos Ostti, dos Pinotti, começaram a enriquecer".

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