Geração 69
Mau
Entrevistado: Mau, vocalista da banda de punk rock Garotos Podres
Entrevistadores: Agnaldo dos Santos, Lincoln Secco e Ciro Seiji
Trata-se de uma entrevista com o Mau, vocalista da banda punk dos anos 80 Garotos Podres, que também é historiador. Ele fala de cultura e músicas jovens, em particular punk e skinhead, diferenciando as diversas tendências (dos comunistas aos neonazistas). Faz uma crítica ao movimento 68, além de outras coisas sobre política internacional. Ele foi entrevistado por Lincoln Secco (historiador da USP), Ciro Seiji (tecnólogo) e Agnaldo dos Santos (sociólogo).
Nossa conversa se iniciou com um questionamento ao Mau sobre como a cultura punk e skinhead compreendia as rebeliões juvenis dos anos 1960, em particular o chamado “Maio de 68”. Para Mau, os movimentos estudantis de 1968, principalmente o de Paris e o da Califórnia, foram movimentos com recorte eminentemente pequeno-burguês, de jovens de classe média que não representavam o conjunto dos jovens trabalhadores da época, daí a indiferença de boa parte desses jovens àquele movimento.
Entrevistador – Você não está reduzindo maio de 68 só à França? Porque Maio de 68 é um movimento que atinge países muito diferentes como Tchecoslováquia, México – ele foi violentíssimo – até Estados Unidos e Brasil, em São Paulo, principalmente. E até a Inglaterra, ainda que de uma maneira muito diferente. Itália, por exemplo.
Mau – Não sei até que ponto fez parte de um movimento geral ou se são apenas movimentos concomitantes. Não sei se eles obedecem à mesma lógica. Por exemplo, a Tchecoslováquia é um movimento totalmente distinto. Na minha opinião, é um movimento contra-revolucionário, felizmente vencido pelas forças democráticas que foram representadas pela União Soviética. Nos Estados Unidos é um outro contexto diferente. Lá você tem o contexto da Guerra do Vietnã e o movimento flower power que está muito ligado não só à resistência contra a Guerra do Vietnã, mas, principalmente, porque esse estudante universitário pequeno-burguês corria o risco de ser recrutado e mandado para o Vietnã porque até naquela guerra existia alistamento militar obrigatório. Essa mesma pequena-burguesia universitária não fala uma palavra hoje em relação aos que estão morrendo no Iraque e no Afeganistão, porque não há mais alistamento militar obrigatório. Então, quem está morrendo no Afeganistão e no Iraque são pobres, muitos deles nem americanos são, nem estadunidenses são. Mas na época, corria o risco de um jovem pequeno-burguês ser enviado para o Vietnã. Então, em grande medida, 68 nos Estados Unidos está muito vinculado a essa questão da resistência contra o serviço militar. Não tenho a menor dúvida que eles estavam pouco preocupados, a grande maioria estava pouco preocupada com os milhões de vietnamitas que estavam sendo imolados sob os bombardeios dos Estados Unidos. Eles estavam preocupados em não ter que ir para o meio do mato morrer. Também houve no México, o massacre do Tlatelolco, aí uma outra questão que eu conheço, confesso que conheço muito pouco. Talvez o único movimento importante que ocorria em 1968, aliás, um pouco anterior a 68, era a grande Revolução Cultural Proletária na China. Esse sim, um movimento democrático, progressista e que servia de modelo e inspiração aos democratas do mundo inteiro. Agora, os demais eram movimentos pequeno-burgueses ou contra-revolucionários, com exceção do México, confesso que eu conheço pouco e, tirando a Grande Revolução Cultural Proletária na China, o resto são movimentos que eu creio ser sem grande importância. Tanto é que aqui no Ocidente, no Brasil, na universidade, se discutiu muito durante esse ano, os 40 anos de maio de 68 em Paris, e pouco se falou de um movimento realmente importante que é a Grande Revolução Cultural Proletária que, embora o início seja um pouco anterior, 68 é o ano auge do movimento.
Entrevistador 1 – Muito pelo contrário, a imprensa agora com as Olimpíadas de Beijing, fizeram questão de, em toda a oportunidade, falar exatamente que a Revolução Cultural era uma página macabra da história da China, enfim. Mas a gente sabe muito bem qual que é o interesse desse tipo de comentário. Mas eu queria aproveitar, Mau, e te perguntar outra coisa, já que até agora você estava focando um pouco a tua fala nesse perfil específico do jovem que participou de 68, mas ele não era o único tipo de jovem que existia, é claro. Eles eram, inclusive, uma minoria da sociedade. Então, eu queria que você começasse a falar, um pouquinho aqui para nós, sobre as várias culturas juvenis que existiam na Europa, particularmente na Inglaterra, mas na Europa de um modo geral e que inseridas nessa cultura vinculada ao rock, vinculada às músicas que haviam surgido já lá nos anos 50, o rock foi um divisor de águas na cultura do século XX, não é? Só que aquilo lá a gente sabe que é um tronco do qual saiu tudo quanto é tipo de ramo. Então, eu queria que você falasse um pouquinho sobre essa cultura juvenil ligada àquilo que ficou convencionado como rock a partir dos anos 50 e, particularmente, na Inglaterra. Quais eram os grupos que existiam nessa época?
Entrevistador 2 – Só complementando, uma vez a gente estava conversando com um colega nosso, e ele disse que o rock era uma invenção norte-americana e eu lembro que você corrigiu um pouco essa informação.
Mau – Bem, em termos musicais eu acho que fica difícil a gente falar de uma origem do rock’n roll como algo estadunidense ou não. Na verdade, as informações musicais circulam de uma maneira muito mais intensa do que a gente pode imaginar. E no caso da Europa, é possível você estabelecer uma linha de origem que vem tanto dos Estados Unidos quanto raízes próprias da Inglaterra e do Caribe. Digamos assim, se o blues teve uma influência muito grande para o rock’n roll nos Estados Unidos, os ritmos caribenhos, principalmente jamaicanos, como dub, rocksteady ska, reggae tiveram uma influência muito grande não só na Inglaterra, mas na Holanda e outros países que têm o seu pé no Caribe. No caso específico da Inglaterra, você tem uma série de movimentos juvenis anteriores inclusive ao próprio rock’n roll, como os mods. E a Inglaterra tem uma característica muito interessante que é uma presença musical muito forte da Jamaica. Então, você tem movimentos juvenis ligados a essa musicalidade jamaicana como os rude boys. Por exemplo, Bob Marley, quando era jovem, era rude boy, usava terninho, chapéu pork pie, não sei o quê. E essa cultura que inicialmente estava no gueto, a partir de 69, vem à tona principalmente com um músico de reggae, Desmond Dekker, que conseguiu chegar nas paradas de sucesso com uma música, Israelites. E é bem interessante que dá para perceber bem esse contexto de gueto. O grande parceiro de composição do Desmond Dekker era Leslie Kong, que é chinês, quer dizer, jamaicano de origem chinesa, que tinha uma sorveteria em Londres e o escritório da gravadora ficava, eu não sei se era nos fundos ou na sobreloja da sorveteria. E os caras lançaram um compacto, esse compacto Israelites ficava entre os 10 mais tocados, eu acho que chegou em primeiro lugar nas paradas na Inglaterra, top 10 na Inglaterra. Então, isso daí deu luz a uma cultura de gueto que estava totalmente fora não só da mídia, mas fora daquilo que havia acontecido no ano anterior. Enquanto no ano anterior a pequena-burguesia sai às ruas para protestar pelo direito de dormir no dormitório das estudantes, das alunas.
Entrevistador – Foi a origem do movimento de 68.
Mau – É, foi a origem do movimento de 68, essas camadas mais proletarizadas dos bairros estava à margem disso. E começam a tomar voz a partir de 69 principalmente com Desmond Dekker. Então, você tem uma série de tribos urbanas. Por exemplo, os rude boys, que eram ligados diretamente aos jamaicanos, os mods, que vem de moderns, o pessoal que andava de lambreta. Tem uma facção mais radical dos mods que era os hard mods, o pessoal já mais da periferia, que a lambreta não era tão bonitinha assim. E os rockers, os grisers, que têm uma multiplicação de estilos e tribos urbanas que não estavam inseridos na universidade porque eram filhos de trabalhadores tão pobres que não tinham acesso à universidade e que viam com um certo desprezo esses movimentos dos filhinhos de papai que pegavam de vez em quando a moto, punham o pé na estrada para depois de dois ou três anos retornar ao curso de administração de empresas e administrar os negócios do papai e continuar oprimindo a classe operária.
Entrevistador 1 – Daí é que vem o seu preconceito contra o pessoal da City?
Mau – Não, não.
Entrevistador 2 – Me explica sobre essa história da City aí.
Mau – Não, não, isso daí era... Isso daí era bobeira, né? Antigamente o pessoal...
Entrevistador 1 – Mas vem da Inglaterra essa...
Mau – Não, não, não. Isso daí era... Entrevistador 2 – Bom, deixe-me fazer uma pergunta. Só para dar uma certa ênfase a essa afirmação. Você está dizendo que Desmond Dekker e todo esse movimento cultural, que era miscelânea nesse período, têm uma origem de música jamaicana, portanto, negra, e isso tudo vem, até os dias de hoje, nessa afirmação e nessa relação que se faz, principalmente pela mídia, de que o som skinhead ou world music estão relacionados ao nazifascismo, quando, na verdade, a sua própria origem vem de uma produção de música negra.
Mau – Bem, a imprensa burguesa é extremamente preconceituosa, não vou falar nem sensacionalista porque isso é óbvio, quando diz respeito a movimentos cujos integrantes não são elementos da fina flor da pequena burguesia. No caso é interessante que os primeiros skinheads eram compostos principalmente pela molecadinha branca que era vizinha dos jamaicanos e que começa a gostar do som dos caras. Não só gostar do som dos caras, como até a copiar o visual mais ou menos. Alguns até copiavam literalmente o visual dos rude boys. Os primeiros skins, em 69, curtiam basicamente reggae, ska, rocksteady e, mais tarde, soul. Quer dizer, em outras palavras, a música negra. Esse estereótipo do skin de neonazista surgiu em 1980 ou 81, agora me falha a memória, na época do lançamento de uma coletânea, Stand Oi, organizada pela Revista Sound e foi organizado um show de lançamento num teatro que, coincidentemente, ficava no bairro paquistanês. Naquela época, estava tendo uns conflitos raciais seríssimos na Inglaterra, principalmente entre a comunidade paquistanesa. Bem, naquela noite, quando estava tendo o lançamento, um pessoalzinho skin vai lá no teatro para assistir ao show das bandas que compunham a coletânea. De repente, a molecada paquistanesa começa a ver um monte de moleque branco, vestido de maneira esquisita, ficaram com medo, pensaram: “não, vão bater na gente!”. Daí essa molecada paquistanesa cercou o teatro, teve um quebra-pau e o teatro acabou sendo incendiado. Nós até poderíamos dizer que a molecada skin foi vítima porque quem apanhou foram eles, né? Como é que saiu na imprensa no dia seguinte (risos)? E tenham em mente que a imprensa britânica é pior do que a brasileira em termos de sensacionalismo. |
Entrevistador – Ah, era isso que eu ia perguntar.
Mau – Que começaram a tentar cooptar. Então, na Inglaterra, nos anos 80, realmente surgiu e existiu um movimento skin de direita e... não era...
Entrevistador – Era o National Front?
Mau – Não, não, National Front, não, não. Front International na França e um pessoal do National Front, em matéria de coisas mais à direita ainda, tipo BNP, British National Party, tem um pessoal mais à direita ainda. Mas, por incrível que pareça, apesar de todo o estardalhaço da mídia, esses grupos de direita de skins sempre foram minoritários. E o que é mais interessante, para se contrapor ao surgimento desses grupos de direita, você tem o surgimento de, por exemplo, dos redskins. Quer dizer, skins comunistas, do Sharp, que não tem necessariamente uma conotação política, mas são militantemente contra o racismo e etc.
Entrevistador – SHARP significa?
Mau – Skinheads Against Racial Prejudice, skins contra o preconceito racial. Então, é muito interessante que a maioria dos skins eram anti-racistas, anti-nazistas e a imprensa, durante muito tempo, vinculou o contrário. E muita gente muitas vezes não entendia, tinha, sei lá, show dos RedSkins, uma banda. Porque chegou a existir uma banda chamada RedSkins. De repente tinha skin de direita querendo bater nos caras, skin de direita querendo defender os caras. E como a mídia explica isso? É muito mais fácil criar o rótulo e encaixar tudo, assim como o Pepe Escobar criou rótulo único para explicar tudo que era o dark. Então, é isso aí.
Entrevistador – Você diria que a maioria dos skins era de pessoas que gostavam só de futebol, terno curto, o defunto era menor (risos) e curtiam a música, mas não tinham nenhuma conotação política?
Mau – Existia várias correntes e essas correntes variavam muito conforme a época.
Entrevistador – Futebol era importante?
Mau – É porque você tem um outro movimento que tem influência entre os skins que é os Boot Boys.
Entrevistador – Boot Boys?
Mau – Podemos traduzir como os ”botinudos”. Que era essencialmente um movimento ligado ao futebol, algo pré-hooligan, digamos assim, da molecada que ia para assistir jogo e muitas vezes fazia besteira, arrumar briga etc e tal. E até o uso de bota com um tipo de biqueira de aço que depois foi proibido no estádio.
Entrevistador – Coturnos?
Mau – Porque a bota era usada como arma na briga. Isso tem influência nos skins, mas quando a gente fala em briga, na Inglaterra, é muito diferente da idéia que temos aqui no Brasil. Hoje em dia aqui no Brasil, qualquer criança de oito anos de idade anda armada com uma AK47, como você vê no Rio de Janeiro. Ao invés de um bebê ganhar um ursinho de pelúcia, ganha uma AK47 para dormir no berço. Logicamente, na Inglaterra quando tinha briga era soco, saía alguém de olho roxo, mas não era massacre como ocorre, infelizmente, no Brasil. Mas você tem influência em vários movimentos onde a origem é skin e mesmo dentro de várias correntes. Você tem o The Soul e The Heads, o pessoal curtia, basicamente, soul. Phil Tony, o pessoal que curtia Ska, “dois tons”, negros e brancos tocando e se divertindo junto. Então, tem várias correntes.
Entrevistador 1 – E a relação com os hippies? Os skins não batiam nos hippies?
Entrevistador 2 – Deixe-me fazer só mais um comentário. A questão das drogas. Por que quando a gente fala em 68 tem muito essa relação com a questão da liberação por meio das drogas. Eu me lembro, por exemplo, que isso sempre foi um problema. Por exemplo, na década de 80, quando havia comícios aqui na Praça da Sé, a gente via os operários de um lado e também o movimento estudantil que tinha exatamente esse perfil que, na verdade, foi importado do cabeludo que defendia a liberação das drogas.
Entrevistador 3 – E muitas vezes eu via os operários expulsando esse pessoal que fazia a apologia da liberação das drogas. Afinal de contas, esses operários na Praça da Sé eram nazistas? Eram fascistas porque eram contra esses ideais de liberdade?
Mau – Bem, é muito interessante que esse movimento pós-68 está muito ligado à questão das drogas. E você tem aquelas coisas tipo Timothy Leary, o cara que fazia experiências com o LSD e achava que o LSD podia expandir a consciência. E depois, mais tarde, ele percebeu que não era bem assim. Então, muitas drogas eram novidade na época. Mas de uma coisa nós podemos ter certeza, de uma maneira geral, as drogas sempre estiveram relacionadas à contra-revolução e não à revolução. Posso dar exemplo. A tentativa de invasão de Cuba pela Brigada 2506, que era uma unidade formada por contra-revolucionários cubanos organizada pelos Estados Unidos, foi financiada pelo tráfico de drogas porque o dinheiro para a operação não podia sair do cofre das verbas públicas dos Estados Unidos. Daí a CIA montou um esquema de tráfico de drogas com o Triângulo de Ouro, o Laos, Camboja etc. para traficar heroína. Boa parte dessa heroína foi introduzida nos bairros negros nos Estados Unidos, principalmente onde havia base social dos Panteras Negras e com o dinheiro da heroína foi financiada essa operação militar. Curiosamente, um dos recrutadores para essa operação militar, um jovem agente da CIA que participou para recrutar esse agentes, se chamava George Bush, futuro presidente dos Estados Unidos e pai do atual presidente. Ou seja, o vínculo entre a família Bush, o crime organizado e o tráfico de drogas e a máfia anti-cubana em Miami é bem antigo. Tanto é que foi em Miami, onde o irmão do Bush era governador, que se decidiu as eleições do “Baby Bush”, do George Walker Bush. Então, as eleições foram decididas pela máfia. Aliás, a relação entre o poder e o crime organizado nos Estados Unidos é patente. Qual é a origem da fortuna da família Kennedy? O pai do presidente Kennedy fez fortuna contrabandeando bebida alcoólica durante a Lei Seca para a máfia irlandesa. E no próprio assassinato do Kennedy há, em grande medida, um acerto de contas dessa relação entre órgãos de segurança dos Estados Unidos, particularmente, CIA e FBI e a máfia. Uma outra curiosidade, lembram do escândalo “Irã–Contras”? O que se ventilou foi contrabando de armas para o Irã. Mas não foi armas, foi também a introdução do crack no bairro, novamente no bairro negro, nos bairros negros dos Estados Unidos, feita pela CIA para arrecadar fundos para a contra-revolução que atuava contra o regime sandinista. Um dos “capos” ligados a esse tráfico de drogas que financiava a contra-revolução foi, inclusive, olha que interessante, responsável pela política dos Estados Unidos na América Latina do George W.Bush, que é o Otto Reich, que é um cara ligado à máfia anti-cubana. Então, curiosamente, as drogas sempre estiveram relacionadas à contra-revolução. E até desconfio que, talvez, essa introdução de uma certa apologia às drogas que existia, como essa geração pequeno-burguesa de 68, talvez em grande parte, era uma estratégia dos próprios órgãos de segurança e de controle social, tipo CIA e FBI, que estava minando e destruindo esses movimentos. No caso aqui do Brasil, acontece o seguinte, você tem um setor da esquerda que parte dele rompeu com o marxismo-leninismo nos anos 30 e parte desse movimento, não todo, lógico, foi recrutado pela Gestapo. Quando terminou a 2ª Guerra Mundial esse setor perdeu o emprego e foi trabalhar para a CIA (risos). É lógico, eu estou brincando, mas eu não sei até que ponto é brincadeira e até que ponto eu estou falando sério, mas essa tradição do setor contra-revolucionário que gosta de se pintar de vermelho é contra-revolucionário, é o setor que, por exemplo, defende as drogas como algo revolucionário etc e tal até hoje. Libertador? Sim. A CIA aplaude. Está conseguindo consumidores e disseminando o vício entre a classe operária, entre o movimento de esquerda, quer dizer, é um agente da CIA voluntário ou involuntário.
Entrevistador – Quando é que o punk surge no Brasil? E isso tem alguma relação com o renascimento, vamos dizer, da classe operária, o novo sindicalismo, as greves do ABC ou não tem nenhuma relação?
Mau – Eu acho que tem uma relação, são contextos diferentes. Mesmo 68, na França, tem um contexto diferente no Brasil. O Brasil vivia uma ditadura. E 68 não é marcado pela ascensão do movimento estudantil. Isso é uma face da moeda. O ano de 68 é marcado pelo AI-5. Então, não há motivo algum para alguém ter saudades de 68 no Brasil. Da mesma forma, vamos supor, a Europa, a Inglaterra, no final dos anos 70, vivia um momento diferente do brasileiro, isso é óbvio. A Inglaterra, especificamente, vivia a tragédia que era a onda neoliberal da Margareth Thatcher, significou, antes de mais nada, a formação de uma verdadeira sub-classe, quer dizer, realmente, o surgimento do conceito que nós podemos chamar de “excluídos”, quer dizer, aquele cara, não é que o cara está desempregado, o cara perdeu o emprego e não vai arrumar outro.
Entrevistador – Não é o lumpem?
Mau – Não é lumpem, é o desempregado, só que dentro de um contexto de desindustrialização imposto pelo neoliberalismo da Margareth Thatcher que lançou boa parte da classe operária às feras. Então, eu acho que o movimento punk está muito relacionado a isso, quer dizer, uma geração jovem que não tem perspectiva de cultura. Nem mesmo a perspectiva de se transformar num operário explorado o cara tem. Tanto é que o Ciro lembrou que um dos lemas era “Não há futuro”. Então, isso marca, inclusive, uma distância brutal entre os pequenos burgueses degenerados do movimento estudantil universitário de 68, que nessa época já estavam se integrando ao sistema, já estavam dirigindo as empresas de papai, já estava entrando no Partido Verde como o Daniel, o Vermelho, que agora o cara virou... parece o Gabeira. O cara já foi de esquerda. Ele se dizia. Eu acho que nunca foi. E uma classe operária em franca decomposição. No Brasil, o contexto era diferente. No Brasil estávamos nos momentos finais da ditadura militar em que você tem uma certa recepção dessas idéias, de algo mais radical, mais contestatório do que havia sido até então o rock’n roll. E, o mais interessante, um movimento que não era um movimento da pequena-burguesia degenerada. Era o movimento das massas populares, era o movimento, antes de mais nada, o movimento de filhos de operários.
Entrevistador – Então, o Lincoln lembrou bem essa questão do punk rock e do movimento operário que nas últimas décadas talvez tenha sido o mais importante em termos de reflexo político, não é? Lembro que a temática do punk rock era uma coisa que refletia exatamente a realidade. Tinha muitas letras e músicas ligadas à realidade do operário, à realidade da opressão da ditadura militar. De uma forma ou de outra, uma coisa deve ter provocado a outra, não me arrisco a dizer se o punk rock é invenção daquela circunstância ou a circunstância, de alguma forma, gerou o punk rock. Mas, enfim, de qualquer forma, ela deu grande fôlego, pelo menos a sua força e a reflexão da juventude nesse período. Eu queria perguntar a você, particularmente na trajetória dos Garotos Podres, da banda que você formou, e até da anterior, a Submundo, qual foi a sua experiência pessoal com a esquerda e os caminhos que o levaram, por exemplo, a musicar a Internacional no disco dos Garotos Podres e essa relação da tua banda e a tua trajetória pessoal com a esquerda, sabendo que você mora no ABC e morou em Mauá.
Mau – Bem, você coloca a questão de opção, até que ponto o punk rock é expressão do movimento. Eu acho que é do movimento social mais geral. Eu acho que é isso. E, de uma maneira geral, eu acho que é perfeitamente lógico, sempre morei no ABC, estudei boa parte, até o Ensino Médio eu sempre estudei no ABC e o Ciro deve se lembrar, afinal de contas estudava na mesma escola que eu no Ensino Médio, a gente pegou aquela época do final da ditadura militar, do ressurgimento do movimento sindical, contestando a ditadura, uma greve em 79, 80. Eu era um daqueles moleques, vários, não era o único, vários moleques que matavam a aula para ver greve. É lógico que a consciência política que a gente tinha era uma coisa muito infantil, seria exagero, mas uma consciência muito incipiente. Mas eu acho que começou a se forjar ali. A partir do momento em que você vê o combate sindical traduzido num enfrentamento de rua com a polícia, contra a ditadura, eu acho que isso daí é extremamente pedagógico, digamos assim. E eu acho que você começa a perceber a existência da manipulação dos meios de comunicação quando você mata aula para ir ver greve e depois chega em casa, liga na Rede Globo que noticia uma coisa completamente diferente do que você viu durante o dia. Então, eu creio que boa parte do meu despertar e do interesse pela política surgiu aí. Surgiu eu, moleque, matando aula, na época do Ensino Médio, para ir ver greve.
Entrevistador 1 – E às vezes a imprensa até escondia, como no caso das Diretas-Já que a Rede Globo não divulgava, né?
Mau – É, no caso da greve dos metalúrgicos era pior. Chegava em casa, a Rede Globo: “ah, a greve está acabando, tal empresa já voltou, tal empresa já voltou”. Daí, no dia seguinte, eu ia para São Bernardo, porque eu morava em Mauá e estudava em São Bernardo, tinha manifestação gigantesca. Daí eu falava: “tem alguma coisa errada, não é? Ou eu estou tendo alucinação ou a Rede Globo está mentindo”.
Entrevistador – Exército nas ruas, revista no estádio vira blitz.
Mau – É, ou o helicóptero do exército que sobrevoava o Estádio do Vila Euclides dava a volta bem em cima da minha escola. O pessoal apontando metralhadora, umas 50 em cada porta, não é? Então, o meu despertar político foi bem por aí. E coincide esse período com o período de ressurgimento do movimento estudantil secundarista. Então, nessa época eu tinha contato com o pessoal que era, eu mesmo não era do movimento estudantil, mas tinha contato com quem era, Bene Alpert, o pessoal e tal. E eu era o cara que sentava no fundão da sala e lia o material, por exemplo, da Alicerce da Juventude Socialista. Então...
Entrevistador – Que livro você leu nessa época, de esquerda, você lembra de algum?
Mau – Puta, eu lia muito pouco, cara.
Entrevistador – Além da Biblioteca do Exército (risos)? Você leu Os Miseráveis?
Mau – Ah, Os Miseráveis eu li quando eu tinha 12 anos. Inclusive, Os Miseráveis, o Noventa e Três também, ambos do Victor Hugo. O 93 eu li, eu já era bem mais velho, tinha uns 13. Mas eu lembro que quando eu vi a greve dos metalúrgicos, na minha cabeça de moleque, ela já me remeteu a Os Miseráveis, barricada, não sei o quê, enfrentamento com polícia e tal. Era muito legal, cara. Eu sabia que eu estava vivendo alguma coisa que era histórico. Eu sabia que aquilo era importante. E eu acho que o início da minha percepção política, ela está aí, ou seja, o movimento metalúrgico do final dos anos 70 e início dos anos 80, como espectador, e o movimento estudantil do mesmo período e a leitura dos pequenos panfletos e jornaizinhos etc., que eram publicados pelo movimento secundarista da época.
Entrevistador – E a banda de vocês, tocou alguma vez em algum evento ligado a greve, show de greve?
Mau – É. Quer dizer, o cara pergunta já sabendo a resposta (risos). Na verdade, o primeiro show da gente, da Garotos Podres, em 83, foi num festival organizado pelo fundo de greve do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André. E é bem interessante, a própria história do fundo de greve é interessante porque todo o sindicato, pela legislação que na época estava em vigor, podia sofrer intervenção do Ministério do Trabalho. Então, já prevendo isso, criou-se uma estrutura paralela, os fundos de greve. Criaram-se centros de cultura operária. E alguns sindicatos criaram os fundos de greve, quer dizer, é uma instituição separada do sindicato para que, se o sindicato fosse tomado pelo governo, você tenha uma estrutura que possibilite a sobrevivência do movimento. E o nosso primeiro show foi durante um festival organizado pelo fundo de greve do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André.
Entrevistador – São Bernardo e Santo André?
Mau – Não, na época era só Santo André porque era separado.
Entrevistador 1 – É, era só Santo André porque era separado, é verdade.
Entrevistador 2 - Então, fazendo uma análise sobre o rock’n roll hoje. Era muito comum, na época, você encontrar as tribos pela rua, não é? Principalmente na região do ABC, você tinha os skins, os punks, tinha os metaleiros, tinha os rockabillies. E todos esses grupos tinham um alinhamento, digamos assim, uma “farda” que pertencia a uma tribo e normalmente até uma classe social, não é? Que você via , que você podia enxergar até pelo tipo de instrumentos que eles tocavam que se relacionavam até, digamos, ao custo desses instrumentos que favorecia. Por exemplo, uma banda de garagem de punk tocava só com aqueles instrumentos que tinha na época. Mas hoje, a gente vê que essas “fardas”, elas estão à venda, não é mesmo? Então você pode trocar a sua “farda” hoje, independente da sua classe social e pertencer a uma tribo por algumas horas do dia e voltar a fazer o que você faz dentro do seu grupo, não é?
Entrevistador 1 – Você acha que esse movimento punk e o movimento skin e todos esses outros, essas tribos, elas tendem a deixar de existir, uma vez que você tem hoje um movimento ligado à música mais relacionado ao modismo e às vestimentas?
Mau – Bem, primeiro eu vou começar falando de uma coisa pior do que você disse.
Entrevistador – Diga.
Mau – Digamos assim, a sociedade é capaz de incorporar valores que, em tese, seriam contrárias a ela. Se nós formos pegar, por exemplo, voltando a 68. Então, o movimento hippie, flower power e tal, um dos símbolos, que se tornou símbolo, calça jeans, coisa e tal, não sei o quê. Daí eu estava lembrando, os mais jovens não devem se lembrar, mas os mais velhos devem. Com certeza se lembram, pelo menos o mais velho, o Ciro, eu lembro de uma marca de calça jeans que criou o seguinte jingle para vender calça, lógico, um jingle que era uma propaganda vinculada à televisão. O slogan era: “liberdade é uma calça velha azul e desbotada”.
Entrevistador – É verdade.
Mau – Então, é a coisa mais perversa que pode existir. Em primeiro lugar, você associa um ideal de liberdade a um objeto de consumo. Então, o mais interessante ainda, essa empresa que era a US Top, que além de vincular a liberdade e um objeto de consumo, ela se propõe a vender calças velhas, azuis e desbotadas.
Entrevistador – Não é o grau máximo do fetiche da mercadoria?
Mau – É muito interessante como qualquer idéia, símbolo ou valor, pode ser incorporado não só comercialmente, porque para que seja incorporado comercialmente, ele tem que ser incorporado ideologicamente. E eu acho que todos esses movimentos urbanos dos anos 80, vide o punk-rock etc., foram, em menor ou maior medida, incorporados, inclusive, pela sociedade de consumo de massa. Um exemplo claro disso, você tem uma série de bandinhas bem sem-vergonhas que incorporam a estética musical do punk-rock e até um pouquinho do visual do punk para fazer música de corno. É o caso do que o pessoal chama, genericamente, de “emo”, sei lá. E essa é uma modinha que vem dos Estados Unidos, imitando as bandas como Green Days etc e tal. Ou seja, o cara pega a estética musical punk que é algo que tinha um conteúdo interessante, o cara pega aquela estética musical, mas só o nome, CPM 22 ou qualquer coisa parecida, pega uma letrinha que bem poderia ter sido feita por qualquer dupla sertaneja.
Entrevistador – Roberto Carlos.
Mau – E fica lá: “porque o meu amor me deixou e eu estou com dor no corno e não sei o quê”, e fica por isso mesmo.
Entrevistador – Mas tem coisa pior porque na campanha à prefeitura do Gilberto Kassab agora, eles pegam uma música dessas de corno e o toque de guitarra é um toque ska. Eu não sei se você teve a oportunidade de escutar, mas é um toque de guitarra ska, numa campanha de um cara que é de direita, não é? O que é mais louco ainda.
Mau – É, ou seja, na verdade, é por isso que eu acho que as pessoas têm que se preocupar muito menos com a forma e muito mais com o conteúdo porque qualquer movimento político, social ou movimento de juventude, isso não interessa. A mídia, ou melhor, a sociedade burguesa é capaz de incorporar a forma. Mas sempre deixando o conteúdo de lado. Uma forma de você combater uma idéia de um movimento é incorporar a forma desvinculando, esvaziando o seu conteúdo. Por exemplo, para muita molecada bem jovem, puta, porque o cara até, pessoalmente, é gente boa. Mas para muita molecada bem novinha, punk-rock é o Supla. Você entende? Assim, pessoalmente ele é super legal e tal, mas não tem nada a ver com o punk-rock, você entende? Mas é essa coisa, você incorpora a estética, mas não o conteúdo. |
Entrevistador – Eles resgatam. Vários andavam com o Bob Marley, não é?
Mau – Exato. Os Beatles fazem uma obra fazendo reverência, não é nem referência, é reverência ao Skak, “Obladi, Obladá”.
Entrevistador 1 – É até uma coisa meio engraçadinha...
Entrevistador 2 – É um ska, não é?
Entrevistador 1 – O Eric Clapton faz um concerto, se eu não me engano, em homenagem ao Bob Marley, que estava na cadeia nesse período também, não é?
Entrevistador 2 – Então, falando nisso, seria interessante, meio que tentando resgatar um pouquinho para a esquerda o que é skin, o que é ska, você tem condições de colocar o que é essencial numa discografia para poder entender esse período? O que é que você recomenda?
Mau – Putz, tem muita coisa, cara, muita coisa. Eu teria até dificuldade em indicar...
Entrevistador – Mas você citou aí Desmond Dekker.
Mau – Eu acho que em primeiro lugar, Desmond Dekker, porque foi o primeiro jamaicano a fazer sucesso na parada da Inglaterra.
Entrevistador – Em que ano?
Mau – 69.
Entrevistador – 1969?
Mau – Eu colocaria também Judge Dread, que foi o primeiro branco a tocar reggae e ska. Ele teve muito problema com censura porque as músicas dele, para a época, eram consideradas bem indecentes, cheio de trocadilho e tal. Um cara completamente desconhecido no Brasil, mas que vendeu mais de 20 milhões de cópias de disco, quer dizer, para você ver como é que a cultura musical aqui no Brasil, é muito dependente daquilo que as grandes multinacionais impõem. Então, eu acho assim, por exemplo, desse pessoal ligado ao reggae, ska, no final dos anos 60, eu acho que esses... poderia começar por aí. Mas, Symarip é bem interessante.
Entrevistador – Esses são os que gravaram Skinhead Girl?
Mau – É, Symarip.
Entrevistador – Tem o Derek Morgan, também?
Mau – Tem, tem o Derek Morgan, quer dizer, um monte de...
Entrevistador – Que eram jamaicanos, né?
Mau – A maioria é jamaicanos.
Entrevistador – Um garoto hoje, que resolve ser skinhead, ele vai ter que ouvir todos esses negros?
Mau – Sim. Senão o cara não é um skinhead.
Entrevistador – Está certo.
Mau – Eu acho, por exemplo, dos anos 70, eu acho bem interessante, além do pessoal do punk- rock, Sex Pistols, Nine Inch Nails, The Clash, Ramones, o pessoal do Two-Tone, eu acho bem interessante, então, Bad Manners, Specials, Bad News. Todo esse pessoal. Dos anos 80, eu acho que eu pegaria, principalmente, esse pessoal do “Oi!”. Four Skins, Infra Riot, Rock Speakers, que tinha um guitarrista brasileiro. Rock Speakers, Rock in reverse e assim por diante. E dos anos 90 para cá tem muitas bandas novas. Mas assim, os primórdios estão aí. Meados dos anos 60 até meados dos anos 80 que está o período de formação dessa cultura musical.
Entrevistador – No Brasil, tem alguém?
Mau – No Brasil, não sei. Tem a gente!
Entrevistador – Por falar em “a gente”, você está trabalhando num CD agora, você pode falar alguma coisa sobre isso agora?
Mau – Está muito no começo ainda.
Entrevistador – É?
Mau – É que está todo o mundo sem tempo, numa correria. Mas algum dia sai. Mesmo porque não tem pressa porque não existe mais gravadora, não é? CD é alguma coisa que eu acho que vai desaparecer. Então, não tem muita pressa de ficar lançando CD o tempo todo.
Entrevistador – Pode usar esse negócio de Creative Commons, também, não é?
Mau – O que é isso?
Entrevistador – Creative Commons. É licença “aberta” de direitos autorais, coloca na rede e deixa para quem quiser baixar. Tem uns caras que tudo bem, você não quer ganhar mais dinheiro, então, pega e coloca na rede, garante do ponto de vista dos direitos autorais, para ninguém vender no lugar de vocês, ninguém ganhar dinheiro em cima de vocês e deixa liberado.
Entrevistador 2 – É, também é uma possibilidade.
Mau – É, porque hoje em dia, CD é uma coisa que vende cada vez menos porque tudo já está na rede. Hoje não tem muita pressa não.
Entrevistador – Tá. Eu acho que é isso aí.
Entrevistador 2 – Você que é um artista, Mau, eu queria fazer uma pergunta para você: “E que time é teu”?
Mau – Foi o vento. O resto da resposta você já sabe (risos).
Entrevistador 1 – Também tem o time de futebol deles.
Entrevistador 2 – É, da Galícia, lá.
Entrevistador 1 – É, para terminar a nossa conversa, então, fale um pouco sobre esse time da Galícia, Galida.
Mau – Então, vamos falar só um pouco:
“Outra vez/ os tempos são chegados/
nessa velha e mítica nação/
Galícia sempre hay en nuestra alma/
o cerca en nuestro corazón/ oi!”
Entrevistador – Em Ritmo da Katyusha!
(Risos!)

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