
A dinâmica de um pensamento crítico: Caio Prado Jr.
(1928-1935)
Autor: Paulo Henrique Martinez
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Um historiador comunista?1
Lidiane Soares Rodrigues2
A dinâmica de um pensamento crítico. Caio Prado Jr. (1928-1935), de Paulo Henrique Martinez, resultado de sua tese de doutorado, vem a lume pela Edusp (2008). O trabalho se dedica pacientemente à compreensão da experiência na base das escolhas intelectuais e políticas de Caio Prado Jr. Os anos que antecedem a concepção de Formação do Brasil contemporâneo merecem atenção do estudioso, que parece não querer deixar escapar nada que possa lançar luz à emergência da sensibilidade social do indivíduo em questão e à produção social do pensamento - contemplando inclusive a vivência no Colégio São Luís do ainda menino Caio Prado Jr., e a conformação de valores que modelam disposições como disciplina, obediência, senso de hierarquia, frutos de uma conduta jesuítica desde cedo incorporada.
Como esses anos de formação se concentram na década de vinte, não passam incólumes ao movimento modernista e à crise do regime político da primeira República. Identificar alguns núcleos dos quais emergem suas reflexões implicou deter-se em três âmbitos, concentrados no seu capítulo inicial, “Combates que tocam a imaginação”. Primeiro, a ambiência política e intelectual da São Paulo dos anos vinte e trinta, na sua configuração particular na Faculdade de Direito (1924-1928). Se o manuseio inteligente das fontes é salutar em todo o trabalho, nesta reconstituição em particular, a escassez de registros exigiu do autor ainda mais cuidado no desenho da fisionomia dos moços do Largo, na análise do discurso da imprensa e das lutas estudantis, para que extraísse o máximo de significações possíveis. Em segundo lugar, a ambiência sócio-cultural do modernismo, em especial a difícil equação entre originalidade e imitação – preocupações culturais típicas de culturas reflexas, que se entrevê na mescla responsável pela síntese entre marxismo e modernismo: um cosmopolitismo europeizado e um nacionalismo decidido. Por último, a investigação de sua passagem pelo Partido Democrático de São Paulo, ao qual esteve filiado entre 1928 e 1931, e por meio do qual esteve envolvido na derrota eleitoral de 1930. Por se tratar da primeira inserção partidária, cujo rompimento assinala a adesão ao Partido Comunista, propicia o entendimento da frustração, que alimenta o “impulso contra a ordem constitucional que assolou os democráticos”, e de certa disposição à ilegalidade – ânimo sem o qual não é possível imaginar a referida adesão.
O segundo capítulo do trabalho propõe o exame das articulações entre conhecimento histórico e política. Evolução política do Brasil, de 1933, é lido à luz das “inquietações políticas contemporâneas ao autor” (p.147), condicionadas pelo debate em torno da Revolução de 1930 “eixo, ao redor do qual gravitaram questões derivadas”. Nestes termos, é engenhosamente proposto um parentesco entre ele e O 18 Brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx. Ora, se é verdade que toda História implica análise do passado e projeto de futuro - tal como o quer Joseph Fontana - pode-se afirmar que há em Evolução, obra historiográfica. Por outro lado, uma anedota pode sinalizar uma indagação que emerge desse ponto.3 Perguntavam, os de outra geração, a Albert Soboul - o historiador da revolução francesa, homem da estirpe dos que se pode chamar compagnon de route: o senhor é um marxista historiador ou um historiador marxista? Respondia escolhendo, evidentemente, a segunda qualificação. Pois bem. Em Evolução, a preocupação de Caio Prado Jr. consiste em “identificar a natureza e o caráter das ‘revoluções populares’ do Império, apontando suas falhas e limitações”. (p.146) A “reconstrução da história política do Brasil da primeira metade do século XIX”, prestou-se ao “objetivo de gerar e orientar as ações no interior das lutas políticas contemporâneas à redação do livro”(p. 146), e, portanto, menos que “compreender e explicar o curso do passado”, era extrair lições da história que o interessava. Trata-se de delinear o “caminho do poder”, para “o triunfo das ‘revoluções’ de autêntico caráter popular”. Foi na “tentativa de balizar este caminho”, que Caio Prado emitiu suas avaliações da ação política pretérita. (p.147). Daí a “proclamada necessidade de organização, como via preferencial para uma eficácia política não completamente alcançada” pelas rebeliões regenciais (p.136-137). Com a licença da adaptação - convocada pela leitura em tela - daquela anedota, o homem que escreve Evolução é um historiador comunista ou um comunista historiador? A resposta parece evidente. E a indagação decorrente dela, também - como se dá a passagem para o historiador comunista? Não por acaso, suspeito, o terceiro capítulo do livro oferece condições para pensar sobre isso.
Novamente, Caio Prado Jr. estudante. Agora, da então recém criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, matriculado na primeira turma de alunos, de 1934, na 5ª Subseção – Geografia e História. Embora não tenha concluído o curso, pois foi preso em novembro de 1935, esta passagem merece atenção pela efervescência de idéias - reconstituída por meio dos anuários, revistas, registros do grêmio dos estudantes, depoimentos de ex-alunos e professores, currículos - que atende à dinâmica da “intensa dedicação para formular uma nova compreensão do quadro histórico que o país atravessava e, diante deste, as tarefas, possibilidades, limites e caminhos de atuação política e intelectual” (p.164), mote de Caio Prado Jr. nessa fase conclusiva de sua formação. Um aspecto a se destacar neste capítulo é a angulação oferecida para leitura de Formação do Brasil contemporâneo. Vinculada apressadamente pelo senso comum ao materialismo histórico, é inegável algo de Fernand Braudel - que a resenhou, inclusive - nesta obra, e o autor destaca Caio Prado Jr. como aluno dele. Abre-se nesse passo amplas sugestões acerca das possíveis conexões entre a interdisciplinaridade defendida pelos Annales como via preferencial para a reconstituição da totalidade histórica e o marxismo (p.200). Disputada - assim como a herança intelectual e simbólica de Caio Prado Jr. - por historiadores e geógrafos, Formação, é fruto de uma formação em que as variáveis tempo e espaço se conjugavam, não se eliminavam. Com efeito, até meados da década de 50, Geografia e História eram um curso só.
Duas críticas não podem deixar de ser feitas ao livro. O autor de explicações. Em primeiro lugar: por que correram dez anos entre a defesa e a publicação da tese? Ora, ela presta um serviço inestimável. Os anos 1924-1935 não são apenas pouco estudados no percurso de Caio Prado Jr., mas neles se encontra “a plataforma que o lançou na busca de um novo ideário e de uma interpretação do Brasil”. (p.89). As experiências primevas desses anos constituem “momentos privilegiados de inflexão política e intelectual” (p.23) - nervura do exame de qualquer trajetória intelectual, em especial , quando se trata da virada de certo idealismo liberal para com a modernidade à adesão ao Partido Comunista, ao marxismo e à revolução. Afirmar – ponto nevrálgico – “Não foi o marxismo que direcionou Caio Prado Jr. para a ruptura, mas esta que desaguou no marxismo” (p. 87) não é possível sem uma inequívoca concepção das inter-relações entre ambiente social e produção de idéias. Daí a segunda queixa. É lamentável a supressão – talvez a única entre a tese original e a publicação que temos em mãos – da epígrafe. É providencial a reprodução das palavras, de cuja ausência nos queixamos - “poser ainsi, à propôs d´um homme d´une singulière vitalitè, ce problème des rapports de l’ individue et de la collectivité, de la initiative personnelle et de la necessite sociale que est peut-être, le problema capital de l´histoire” - pois o autor é insuspeitamente inspirado no livro de que as extrai, não se trata de um adorno bacharelesco. Elas pertencem a Lucien Febvre, apresentando seu propósito, como historiador, ao tratar d’Un destin: Martin Luter. Indivíduo e sociedade – eis o problema de ambos. Como se relacionam ambos em sua época – eis o desafio.
Há, em suma, no livro, um grande historiador comunista, que se forma nas frustrações de um comunista historiador; um geógrafo historiador, não fazendo muito sentido as disputas infantis por essas denominações profissionais em torno de seu nome; um marxismo que não elimina a perspectiva braudeliana, não fazendo muito sentido oposições simbólicas, no limite, pueris, entre as associações fáceis oriundas de recursos teóricos de que nos valemos. Há, finalmente, um historiador geógrafo - inverto agora, para não me acusarem da disputa que gostaria de eliminar - que formou-se na FFCL, ainda que não tenha feito sua “formatura” nela - não fazendo, portanto, muito sentido, sermos contra a profissionalização do ofício “porque nosso grande historiador Caio Prado nem era formado em História”, como reiteradas vezes o desconhecimento histórico permitiu alguns bradarem nessas discussões. Os jovens historiadores e estudantes que porventura lerem esta resenha - e tiverem disposição à abertura de espírito, como requer o ofício - logo entenderão por que a leitura desse livro é indispensável: ele desfaz uma confortável imagem com a qual o senso comum acadêmico gosta de repousar a inteligência.
- Resenha do livro de Paulo Henrique Martinez. A dinâmica de um pensamento crítico: Caio Prado Jr. (1928-1935). São Paulo: Edusp, 2008.
- Doutoranda do Departamento de História – FFLCH –USP.
- O professor Fernando Novais, com sua notável espirituosidade, gosta de contá-la.

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