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A construção histórica da juventude e a ascensão da “juvenilidade”1
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Agnaldo dos Santos2 Introduzindo o Tema “A consciência da juventude tornou-se um fenômeno geral e banal |
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Ele distinguiu portanto o processo de aprendizado no Antigo Regime (momento na qual a convivência de adultos e crianças criava as condições para a transmissão cultural) do processo de socialização moderna, que constrói a educação via instituição escolar, apartando a criança do mundo "adulto", particularmente do mundo do trabalho. Isso parece correto quando falamos da criança e do jovem das classes médias urbanas e da aristocracia (strictu sensu, mas também burguesa) que foram criados na nascente sociedade industrial; o mesmo não se pode dizer das crianças e adolescentes que engrossavam o contingente do proletariado fabril na Europa (e sabemos, também no Brasil). Ariès faz notar que o processo escolar medieval não era determinado pela divisão etária, a escola “(...) acolhia da mesma forma e indiferentemente as crianças, os jovens e os adultos, precoces ou atrasados, ao pé das cátedras magisteriais” (idem, p. 187). Contudo, com o surgimento da sociedade capitalista, aquela convivência entre jovens e adultos, entre plebeus e nobres nos antigos colégios foi substituída pela introdução de uma férrea disciplina3 e de uma divisão mais precisa por idade. A partir de agora, passava a existir dois tipos de escola, uma primária para o povo e outra mais prolongada para a nova classe social em expansão: a burguesia. |
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Ao contrário da nobreza, que em alguns casos até tolerava o analfabetismo entre seus pares, o típico burguês prezava pela distinção formal e real das classes via processo educacional, o que acarretou um aumento nos anos de educação, que fez com que ela passasse a coincidir com os anos da infância e adolescência. Fica mais claro o traço histórico e artificial do senso de classe etária quando lembramos o trabalho infantil no período da Revolução Industrial, que certamente acelerava a introdução da criança e do jovem no mundo adulto, tal qual na Idade Média. “Existe portanto um notável sincronismo entre a classe de idade moderna e a classe social: ambas nasceram ao mesmo tempo, no fim do século XVIII, e no mesmo meio – a burguesia” (idem, p. 194). “[A sociedade industrial] está só interessada em indivíduos, ou pelo menos em famílias. Por outro lado, “(...) o século XIX tem medo de sua juventude, e particularmente de sua juventude operária, da qual se teme a vagabundagem, a libertinagem e o espírito contestador” (idem, p. 85). Devemos a esta autora também a definição de uma "juventude da greve", que ocorrera na França em meados do século XIX até o seu findar, com a constituição da moderna classe operária francesa. Seus estudos sobre os movimentos grevistas fizeram notar que não só existia uma participação considerável de jovens trabalhadores nesses eventos, como a própria forma adotada pelas greves (irreverência, disposição inesgotável para o confronto etc) fazia referência a um novo modus vivendi entre o emergente proletariado: “A greve tem, na maioria das vezes, uma dupla função: ela é meio de pressão Urge, então, refletir por que esse perfil do movimento operário descrito acima, decerto com explícito entusiasmo (mas essencialmente percebido por seus atores como uma "qualidade") vai perder cada vez mais espaço para uma concepção formalizada, burocrática, de organização sindical.4 O movimento operário europeu do século XIX continha, em seu seio, vários líderes e militantes já a partir dos quinze anos de idade. As antigas oficinas propiciavam aos jovens aprendizes apenas revoltas individuais, tumultos e fugas da tutela rígida do mestre5 no caso da fábrica, o maior número de pessoas nas mesmas condições sociais (e na mesma faixa etária) facilitava ações mais coletivas. Se não constituíam um movimento social de tipo moderno, utilizavam este canal, e principalmente a greve, para expressarem o descontentamento com suas condições laborais e mesmo com sua condição subordinada na família operária. |
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“Os jovens estão presentes nesses movimentos [de massa], Contudo, em várias ocasiões esse contingente juvenil era pouco respeitado, sequer ouvido. “Nas minas, a situação dos condutores ou carregadores de |
![]() Michelle Perrot |
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| Percebe-se que os jovens mais se manifestam do que se associam, que nos combates de rua típicos da Europa oitocentista eram ardentes nas barricas mas não esqueciam dos prazeres da vida; estamos portanto longe do típico militante asceta bolchevique do século XX. Somente os grandes acontecimentos os mobilizavam (as jornadas de julho de 1848, a Comuna de Paris de 1871), e salvo casos raros, seu cotidiano era preenchido, além do trabalho, por bailes e esportes – hegemonicamente o boxe e a luta de rua, ao contrário da esgrima aristocrata. Como muitos desses jovens rebelavam-se não só contra os patrões, mas também contra a tutela paterna, consideravam os embates como uma possibilidade de mudar de estilo de vida, de serem mais livres, o que pode explicar sua aversão ao institucional. | |||||||||||||||||
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“A sociabilidade informal, predominante na primeira metade do século, lhes convém mais que as organizações formais e hierarquizadas. Por considerarem os jovens como menores e subordinados, na maioria das vezes, sindicatos e partidos não favoreceram muito sua integração [grifo meu]. Daí sua atração, no início do século, pelos libertários que os acolhem melhor ” (Perrot, idem, p. 117). Vemos nesse painel que a relação entre o movimento sindical e os jovens operários era, desde a gênese das lutas operárias mais organizadas, no mínimo problemática.6 Não que eles não estivessem presentes, pelo contrário, muitas vezes eram a vanguarda das greves e combates de rua. Mas parece que já naquele momento – fins do século XIX, início do século XX – ocorria uma crescente consciência de pertencimento a uma classe específica, com comportamentos característicos e desejos comuns; já naquele momento o lazer e o consumo (e a sexualidade) disputavam com a política seu espaço no meio de uma nascente “juventude”. Não obstante, será no século XX que testemunharemos as tentativas de construção não só de uma consciência da juventude, mas particularmente da figura do jovem radical ou do jovem revolucionário. |
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Juventude e Bolchevismo Ainda que sejam interessantes as analogias que se fizeram ao longo das últimas décadas entre o bolchevismo e algumas religiões, como o cristianismo, no tocante às idéias de vanguarda e de missão (Portelli, 1984), não vamos nesse espaço explorar tais características, sugeridas pela ótima gramsciana. Importa aqui saber que a “mística” do ideário comunista influenciou muitos jovens do fim do século XIX e início do século XX; desta feita seria natural então que os principais teóricos dessa tendência se manifestassem a respeito desses jovens. Lênin deixou vários escritos em que discute a temática da juventude e sua relação com o movimento comunista internacional no início do século XX. Sua visão do jovem trabalhador era a mesma da percepção corrente no movimento operário, inclusive em sua reivindicação histórica, a de que as crianças deveriam dedicar-se integralmente à escola, e o jovem deveria ter uma jornada de trabalho limitada. “É preciso que a União das Juventudes Comunistas una sua formação, sua instrução Interessante notar que na concepção bolchevique, era necessário subsumir todos os interesses particulares em prol da causa operária, inclusive em um ponto que tornou-se questão de honra para todos os movimentos de identidade juvenil no século XX, que era o serviço militar obrigatório. Mesmo reconhecendo a injustiça no recrutamento militar, que os filhos de trabalhadores são sistematicamente humilhados nas casernas, que os jovens estudantes radicais eram recrutados como uma forma de substituir Voltaire por um sargento, e que os jovens aristocratas eram sempre agraciados, mesmo assim Lênin afirmava que a instrução militar era importante: “A militarização impregna hoje toda a vida social (...) Que farão contra isso as mulheres proletárias?
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Tais palavras ganham ainda mais significado quando voltamos nossos olhos para o papel da carreira militar na ascensão social de jovens de classes sociais menos favorecidas ao longo do século passado. Só para ficar em dois casos notórios, tanto Luís Carlos Prestes no Brasil (principal expoente do Movimento Tenentista) quanto o capitão Maia da Revolução dos Cravos em Portugal representavam jovens oficiais com tais origens, portanto seria factível buscar relações entre ascensão social via caserna e participação política, ao menos em conjuntura políticas favoráveis a tais manifestações. Sociedades onde a ascensão social não ocorre de forma estrutural (ou seja, onde o crescimento econômico já não abre oportunidades de mobilidade), mas cíclica (ocorrendo mobilidade por meio de intensa e perversa competitividade) é que oferecem esse tipo de carreira mais segura, somando-se ao fato que o status dessa opção já não fica restrito exclusivamente aos filhos de oficiais, abrindo espaço aos demais estratos sociais. |
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Indubitavelmente, a jovem república soviética da Rússia, os jovens soldados da revolução, e a esperança no surgimento de um novo homem, em um momento que o capitalismo parecia cair de maduro (década de 1930), tonificavam o paradigma da juventude revolucionária. Teenagers by America “Tratava-se da primeira geração de adolescentes americanos privilegiados, mas sobretudo Essa nova construção histórica de juventude, que com as devidas alterações sobreviverá até os nossos dias, destaca os “problemas” que a mocidade desenvolve para o conjunto do corpo social, pois são em geral apresentados como rebeldes sem causa, transgressores, excessivamente lúdicos. A imprensa e as autoridades acabaram por eleger os líderes estereotipados dessa geração (James Dean, Elvis Presley, logo após os Beatles, os Rolling Stones), e os acontecimentos dos anos 1960 (Guerra do Vietnã, luta pelos direitos civis norte-americanos, Maio de 68) apenas reforçaram os contornos dessa grande “comunidade juvenil”. No caso brasileiro, foi paradigmático o conflito entre os estudantes da Faculdade de Filosofia da USP e os estudantes da Universidade Mackenzie (onde existia um grupo denominado Comando de Caça aos Comunistas) em outubro de 1968, que mesmo representando uma pequena parcela da juventude brasileira (universitária), ganhou destaque como o símbolo do ativismo juvenil do período. Já o movimento musical conhecido como Jovem Guarda buscou “tupiniquinizar” a outra vertente do perfil juvenil estereotipado – a dos jovens despolitizados, mas extremamente preocupados com sua afetividade e com os prazeres da vida, por aqui chamada de “ié, ié, ié”. “Os operários, sobretudo nos últimos anos de juventude, antes que o casamento e Devemos notar que esse período, que representou de fato uma revolução cultural no século XX, apontou para dois fenômenos que nos interessam em particular – a volatilização da consciência de classe operária e a percepção individualista da política. A ampliação do consumo entre as classes trabalhadoras nos países europeus e na América do Norte disponibilizava outras formas de lazer, que durante um bom tempo foi hegemonizado por instituições como, por exemplo, o Estado, o partido e o sindicato (os comícios, as partidas de futebol, os bailes). O espaço público, local dos comícios, das festas, das refeições ao ar livre, começava a perder a preferência para o espaço privado, com a popularização do rádio, da televisão e do toca-discos. Nesse contexto, as novas gerações de militantes, surgidas nos anos 1960, divergiam muito daquela geração de Olga Benário: “O slogan de maio de 1968, Quando penso em revolução quero fazer amor, |
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![]() Michel Foucault |
Um aspecto muito interessante dessa juventude de 1968, que gerou tanto jovens politicamente radicais quanto pacifistas (os hippies ), é a semelhança com a juventude romântica do século XIX. Groppo (2000) fez notar que a fuga do consumismo, da agitação da cidade moderna e a preocupação com a integridade moral não eram novidades deste século: O Movimento Juvenil Alemão teria, já no último quartel daquele século, apresentado duas características que o senso comum atribuiria aos jovens contemporâneos, “(...) o totalitarismo – o projeto de uma sociedade exclusivamente juvenil – e o romantismo – a fuga para os campos, para o ‘primitivo’ e para o ‘comunitário’ “ (p.102). Mesmo quando tratamos dos jovens que aventuraram-se nas guerrilhas de inspiração guevarista, chama a atenção algumas semelhanças com o idealismo romântico passado. Pois, se o Wandervogel (Pássaro Migrante, grupo símbolo da Juventude Alemã) promovia marchas para os campos e aldeias da Alemanha, os revolucionários latino-americanos tinham como símbolo a Sierra Maestra da Revolução Cubana. Além disso, um dos teóricos do chamado foquismo e companheiro de “Che” Guevara, Régis Debray, atribuía maior importância à jovialidade do militante do que ao seu conteúdo classista. |
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“O tom juvenil da propaganda foquista é capaz de (...) derrubar a determinação
Não é possível comparar esses dois momentos distantes no tempo sem observar suas peculiaridades e suas diferenças. Há uma distância muito grande entre Werther, personagem de Goethe e um dos símbolos dessa juventude romântica, e James Dean, o jovem rebelde “sem-causa” . Mas parece claro que temos aí uma espécie de tipo ideal do que ficou cristalizado como juventude moderna. Cabe agora problematizá-lo. Juvenilidade e a “Ditadura da Juventude” Como vimos, parte da produção sociológica mais recente têm procurado apontar a insuficiência não só da padronização da juventude como uma “classe”, como também da atribuição de uma caráter marginal” ou “revolucionário” aos jovens contemporâneos. De um modo geral, essa produção tem buscado afastar o estereotipo de passividade juvenil, ou seja, de uma juventude que apenas sofre a intervenção de instituições sociais, e que teria, desta feita, uma postura mais propositiva – um protagonismo juvenil, um setor (ou conjunto de setores) que desejaria dialogar e expôr suas necessidades. Talvez o maior paradigma desse protagonismo juvenil seria, atualmente, o movimento Hip Hop, dos jovens pobres e negros das periferias das metrópoles. Estes jovens procurariam, através da música rap e dos grafites desenhados pela cidade, denunciar a violência e as injustiças sociais sofridas nos bairros populares, e utilizariam portanto a estética, a arte, como canal de comunicação social. Sem questionar a originalidade e as possíveis contribuições dessas manifestações juvenis, caberia perguntar se a “autoconsciência jovem” e sua condição social teriam a mesma pertinência que aquela surgida já em fins do século XIX e desenvolvida ao longo do posterior. Sem igualmente cair em anacronismos de qualquer espécie, é necessário recordar o que foi dito no início – a categoria juventude é uma construção social e histórica , mas como tal está sujeita a sofrer alterações e a interferência da lógica mercantil, que sabemos desde Weber é a que mais tende a colonizar as demais esferas da vida na modernidade capitalista. O antigo é apresentado no mercado como algo “in”, original, logo jovial. |
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Voltando os olhos para o sociólogo alemão Karl Mannheim, vemos que o autor já percebera nos anos 1940 que transformações sociais tendem a privilegiar o comportamento das novas gerações: “Condições estáticas levam a atitudes de fidelidade – a geração maisnova tende a adaptar-se à mais antiga, mesmo a ponto de fazer-se parecer mais velha. Portanto, sugere que os fatores biológicos naturais característicos da velhice poderiam ser invalidados por forças sociais, e que os dados biológicos quase que podem ser transformados em seus opostos por essas forças sociais. Fazendo uma analogia entre classe e geração, dirá que do mesmo modo que as ideologias produzidas por uma vanguarda influenciam pessoas de classes sociais distintas, também certos impulsos particulares a uma geração podem atrair membros de grupos etários anteriores ou posteriores, se a tendência da época for favorável. A juventude pode, portanto, se transformar num traço cultural de uma época. |
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Nesse sentido, é possível recorrer a Groppo (2000), que faz uma sugestão interessante para a compreensão da juventude contemporânea. O desenvolvimento de uma consciência etária homogênea teria, de fato, atingido seu ápice nos anos 1960/70, com todos os tipos de rebeldia juvenil e de aparições espetaculares (como já havia indicado também Helena Abramo). Ocorre que essa rebeldia não teria emergido sem uma contribuição significativa da imprensa e, posteriormente, de toda mídia. A emergência da juventude teria sido acompanhada por uma tentativa de controle institucional pelos “adultos” (como já citado, escolas, exército, juventudes nazi-fascistas, juventude comunista etc), uma vez que havia certo temor pela rebeldia e vadiagem juvenil. Por outro lado, houve paralelamente o florescimento de inúmeros grupos “autônomos”, que reivindicavam sua independência com relação à sociedade e aos “velhos”. Desse choque de perspectivas é que surgiria então algo que o autor classifica de juvenilidade, um estilo de vida identificado com o consumo e o bem-estar. “(...) As instituições modernas de consumo absorveram e transformaram em seus Uma conseqüência não prevista no processo de emergência da consciência juvenil é que, tentando fugir das instituições criadas pela sociedade para controlá-los, os grupos juvenis acabariam eles próprios construindo outras instituições que terminariam por enclausurá-los, nesse particular a esfera do consumo (idem, p. 53). Um exemplo bastante útil é a relação dos jovens com as drogas legais e ilegais. Sem entrar aqui no mérito da discussão sobre os problemas que envolvem o consumo das drogas ilegais, é interessante notar como é muito elevado o consumo de cigarros e bebidas entre a juventude. Com a intenção de romper barreiras e delimitar seu espaço, os jovens elegeram alguns hábitos de consumo como sendo indicativos de sua “liberdade” ou de uma pretensa “virilidade” e “jovialidade”. |
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Pesquisa promovida pela Unifesp entre a população paulista acerca do uso de drogas psicotrópicas (Pesquisa Fapesp, número 52, páginas 14-21), demonstra como o uso do álcool causa dependência entre uma porcentagem considerada alta de jovens do sexo masculino entre os 18 e 24 anos (18,2%). Mais alarmante, (e talvez ainda mais significativo) é o consumo de moderadores de apetite nessa faixa etária, particularmente entre as mulheres: na faixa de 12 a 17 anos, 18% dos entrevistados, e em especial as meninas (27,3% do público feminino) apresentavam um Índice de Massa Corporal semelhante ao dos desnutridos, reflexo de uma “ditadura” da estética, tendo como referência a magreza, em geral associada aos jovens esbeltos. Por outro lado, podemos suspeitar que as diversas manifestações juvenis, ao empreenderem uma crescente diferenciação da cultura e do modus vivendi da sociedade tida como “adulta”, estariam sendo envolvidas naquilo que Antônio Flávio Pierucci (1999) chamou de cilada da diferença, ou seja, a retroalimentação da postura conservadora por meio de uma reivindicação considerada progressista, o direito à singularidade ou ao exotismo. Salvo os casos dos jovens de postura política conservadora ou assumidamente desinteressados por política, os grupos com intenções de interferir em seu meio social, ao insistirem numa diferenciação entre eles e os “adultos”, cairiam no inevitável isolamento ou desprezo dissimulado por parte destes últimos. |
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Algumas Conclusões Compreender as implicações dessa construção histórica da Juventude Moderna na participação de jovens em instituições tradicionais, como sindicatos e partidos, pode nos levar a uma maior clareza sobre o pessimismo expressado pelo senso comum atual em relação à participação política da juventude. Ou seja, é possível que o elo de ligação entre as gerações, que fazia por exemplo jovens operários se formarem no chão da fábrica (e eventualmente na luta sindical), estabelecendo assim um reconhecimento mútuo, tenha se rompido, dificultando assim a ação política tradicional junto às novas gerações operárias. Nunca é demais lembrar que exatamente uma década depois dos acontecimentos de 1968 jovens operários organizaram grandes jornadas grevistas no ABC Paulista e protagonizaram a vanguarda da redemocratização do país; isso sem cartilhas comunistas nem aulas de ciência política, mas a partir de sua condição social e traços de identidade de classe, de migrantes e também de jovens. |
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAMO, Helena Wendel. Cenas Juvenis (Punks e Darks no espetáculo urbano). São Paulo, Scritta, 1994. ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1978 FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis, Editora Vozes, 1997, 16a edição. GROPPO, Luís Antonio. Juventude – Ensaios sobre Sociologia e História das Juventudes Modernas. Rio de Janeiro, Difel, 2000. HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos. O Breve Século XX: 1914/1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1996. LÊNIN, V. I. Acerca de la Juventud, Moscou, Editorial Progreso, 1976. MANNHEIM, Karl. “O problema sociológico das gerações”, Mannheim – Grandes cientistas sociais, Marialice Foracchi (org.), São Paulo, Editora Ática, 1982. PARANHOS, Kátia Rodrigues. Era uma vez em São Bernardo. Campinas, São Paulo, Editora da Unicamp: Centro de Memória Unicamp, 1999. PASSERINI, Luisa. “A juventude, metáfora de mudança social. Dois debates sobre os jovens: a Itália fascista e os Estados Unidos da década de 1950”, G. Levi e J. Schmitt (orgs.), História dos Jovens 2 - A Época Contemporânea. São Paulo, Companhia das Letras, 1996. PERROT, Michelle. Jeunesse de la Grève. France: 1871-1890. Paris, Éditions du Seuil, 1984. -------------------------- “A juventude operária. Da oficina à fábrica” , G. Levi e J. Schmitt (orgs.), História dos Jovens 2 - A Época Contemporânea. São Paulo, Companhia das Letras, 1996. PIERUCCI, Antônio Flávio. Ciladas da Diferença, Curso de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo: Editora 34, 1999. PORTELLI, Hugues. Gramsci e a Questão Religiosa. São Paulo, Edições Paulinas, 1984. SANTOS, Agnaldo dos. Debutantes e Outsiders – Juventude Metalúrgica e Sindicato no ABC Paulista. (Dissertação). Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2001.
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