
Caio Prado Júnior
O sentido da revolução
Autor: Lincoln Secco
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O Sentido da História na REVOLUÇÃO de Caio Prado Júnior
Eduardo Bellandi1
Muito embora uma alentada biografia do historiador e militante comunista Caio Prado Júnior a obra Caio Prado Júnior: o sentido da revolução, do também historiador e professor da Universidade de São Paulo Lincoln Secco é uma detalhada descrição e apurado relato do surgimento do marxismo no Brasil.
Por meio da vida e obra de trajetória única desse intelectual, o modo de compreensão e interpretação da realidade denominado marxismo, surgido desde a dupla revolução (econômica e política) definidora do mundo contemporâneo e presente na obra de Karl Marx assim como de seus seguidores, chega ao país.
A etapa inicial desse percurso pode ser compreendida e assim a denomina Lincoln Secco, por significado da adesão. Tendo por marco a filiação de Caio Prado Júnior ao Partido Comunista do Brasil (na sigla PCB), no ano de 1931. Tem, porém, sua origem no período anterior da vida do militante comunista.
Informa Lincoln Secco: “compreendendo que havia uma relação proporcional entre a miséria moral e cultural da população e o baixo nível político das classes dominantes” e que “tal situação... não interessava a ambas as classes”, irá Caio Prado Júnior se filiar “muito mais a uma tradição de contestação intelectual... que via na degradação do escravo a degradação do próprio senhor” (citações à página 47, o itálico é meu).
Embora própria de uma compreensão da realidade anterior e alheia ao surgimento do comunismo no Brasil, a adesão de Caio Prado Júnior ao PCB não marcará de maneira menos radical e indelével sua peculiar trajetória.
Será constituída esta adesão de um significado de profunda escolha pessoal: uma verdadeira escolha de vida – citações atribuídas por Lincoln Secco ao historiador marxista Eric Hobsbawm e ao líder comunista italiano Giorgio Amendola – definidora da opção política que permeará sua existência.
Desde então, Caio Prado Júnior travará intensa luta cultural voltada para a mudança da face amorfa do país. O mais importante, senão o principal dessa luta será travado na tentativa da transformação do PCB no mais adequado instrumento dessa mudança.
O final da década de cinqüenta e início da década de sessenta do século passado, marcariam um momento de transformação na cultura da esquerda no Brasil.
A desestalinização ocorrida desde 1956 virá permitir “uma tímida abertura intelectual” (página 104), muito embora permaneçam latentes as divergências existentes no interior do PCB, no que toca a interpretação da inserção brasileira no contexto mundial, tanto quanto à compreensão da história do país.
Foi o golpe militar de 1964, para o qual o PCB não tinha explicação aceitável, o principal fator a colocar por terra o arcabouço de interpretação histórica que sustentava a compreensão que o partido fazia da realidade brasileira: essa interpretação definia o país “como um capitalismo industrial bloqueado, seja pelo imperialismo, seja pela herança colonial” (página 108).
É nesse contexto que Caio Prado Júnior irá publicar o livro A Revolução Brasileira de maneira a estabelecer um vínculo entre uma interpretação da história do Brasil e um “programa político revolucionário supostamente adequado” (página 117) para o momento.
Embora já desfrutasse, desde o início da década de sessenta de um “prestígio intelectual, muito além de seu partido” (página 107), será como intelectual orgânico ao PCB e militante revolucionário, que Caio Prado Júnior realizará a adequação do marxismo até então praticado no país com a compreensão da história mesma desse país.
Será a “insistência na historicidade do marxismo” (página 115) que fará o autor realizar a necessária e ausente, até aquele momento, adequação da história do país com a interpretação de sua realidade, que era feita pela esquerda comunista, até então.
A história como método de interpretação marxista surgirá em Caio Prado Júnior desde o lançamento de seu ensaio de interpretação materialista da história brasileira, lançado em 1933 e denominado Evolução Política do Brasil, onde “revela os elementos materiais que definiram a forma de organização econômica do Brasil” (página 162).
Concomitante ao período que vivia o país – de insurgências revolucionárias ocorridas desde 1922 e assinaladas em nossa história como movimento tenentista – Caio Prado Júnior irá descrever o processo de emancipação colonial (e parcial) do Brasil desenvolvido a parir de 1808, com a chegada da Família Real portuguesa.
Dará destaque às lutas regenciais, caracterizadas por seu “ímpeto difuso e desordenado”, assim como pela “ausência de um programa” e “direção política” (página 163), de maneira a resultar no desenlace final do processo histórico que conhecemos como Independência do Brasil – que se inscreve, na história do país, como artifício destinado a barrar os avanços da revolução constitucional do Porto.
Este pequeno livro irá mostrar em Caio Prado Júnior, um leitor atento da obra O Dezoito Brumário de Luis Bonaparte, onde Karl Marx realiza seu relato factual e anticlimático d’A Primavera dos Povos.
Será nas obras seguintes Formação do Brasil Contemporâneo, de 1942 e História Econômica do Brasil de 1945, que veremos realizar-se plenamente o método marxista denominado materialismo histórico, por meio do qual Caio Prado Júnior irá “à história concreta para empreender a viagem de retorno e elaborar uma formalização científica” (página 176).
A primeira destas duas obras inscreve-se como marco em nossa historiografia, ao dar significado à nossa colonização como uma estrutura destinada a “atender necessidades externas” (página 171).
Definindo a sociedade colonial brasileira como periférica, Caio Prado Júnior deslocará para o mercado mundial os fundamentos da economia cuja definição política será dada pela metrópole lusitana. E Lincoln Secco irá assinalar: “a tragédia daquela sociedade é que seu único setor organizado e que mantém nexos éticos mínimos que permitem a estruturação e continuidade da vida social é a escravidão” (página 174).
Na obra de 1945, História Econômica do Brasil, Caio Prado Júnior ampliará a formulação, anteriormente inscrita ao âmbito colonial, para os períodos imperial e republicano: após sua independência política o Brasil permanecerá sendo uma economia colonial para a qual o início do século XX servirá de posto avançado destinado a “se fazer um balanço de três séculos de colonização” (página 181).
Caio Prado Júnior e depois – passados quase vinte anos de sua morte, a obra de Caio Prado Júnior permanece um importante instrumento na compreensão do Brasil contemporâneo.
De que outro modo entender as contradições que vitimam o governo atual presa fácil entre as garras de um agro-negócio, prejudicial ao meio ambiente e exportador de matérias primas nos moldes daquele mesmo latifúndio agro-exportador, que impede a reforma agrária que Caio Prado Júnior tantas vezes propugnou?
Portanto, é toda uma interpretação histórica da atualidade brasileira que perfaz a obra Caio Prado Júnior: o sentido da revolução de Lincoln Secco, propiciando ao leitor um vasto panorama da realidade histórica nacional, por meio da utilização de um dos mais apurados instrumentos de compreensão da realidade já criados e, desde então presente no Brasil.
Eduardo Bellandi (membro do Núcleo de Estudos d’O Capital do PT)
1. Doutorando do Departamento de História – FFLCH –USP

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