Transtorno Obsessivo do Capital
na exuberante Volta Grande do Xingu: Amazônia, beira de rios e proximidades.

Francisco Del Moral

                                          “Quando nos tempos da exploração da borracha na Amazônia dizia-se que o único crime que lá se cometia                                           era não voltar de lá rico, conforme registra o ensaísta amazonense Samuel Benchimol. É ele quem nos                                           conta que à entrada do rio Purus, o mais rico na exploração de borracha, havia uma ilha chamada                                           Consciência, que era onde você devia deixar a consciência antes de subir o rio para não se lembrar do que                                           você havia feito quando voltasse do alto rio. Não à toa, no interior do nordeste, o paroara, aquele que voltava                                           rico da Amazônia, era visto como tendo uma riqueza amaldiçoada".1

 

         A Amazônia está no centro das atenções, mais uma vez. Sempre esteve, não esqueçamos, para aqueles que lá vivem e tem seus modos de vida garantidos por uma imensidade de águas, beiras de rios, igarapés, árvores, bichos, gentes e pólos urbanos. Quem esteve por lá se impressiona pelas dimensões sempre enormes, pela exuberância dos cheiros, das cores e de sabores. Por interação simbólica, através dos relatos, músicas, histórias e lendas contadas, os que lá não estiveram tem algo presente em si das dimensões que falamos. Não poderia ser diferente considerando que quase uma metade deste território brasileiro (muitas vezes chamado de nação brasileira mesmo que não saibamos dizer com exatidão o que é isso) é coberta de florestas.

 

         Não é de hoje que existe uma obsessão por parte de muitos que moram longe daquelas terras, mas as encaram como um armazém de riquezas, além de uma prateleira de curiosidades que podemos, ao alcance da mão saciar, nosso gosto pelo exótico. As águas e terras ribeirinhas, já faz muito tempo, tem outros usos que não apenas aqueles de tomar banho, pescar, saciar a sede, atravessar, se locomover. As grandes obras hidrelétricas e seus idealizadores enxergam os rios como algo que pode e deve ser barrado. A história das hidrelétricas no sudeste brasileiro é inequívoca e implacável no registro material e concreto (muito concreto) da transformação de rios em uma sucessão de “escadas” de reservatórios. O que chamávamos de rios já não o são pois suas dinâmicas foram alteradas. Há uma obsessão em barrar a Volta Grande do Xingu. Hoje a ameaça de chama Usina Belo Monte, mas já foi Kararaô. O nome atual, inspirado por um monte belo situado nas proximidades do cruzamento da transamazônica com o rio Xingu nos lembra, com ironia involuntária, da tragédia oficial que se abateu sobre o Conselheiro e seus aconselhados.2 Este relato de viagem de assessoria a trabalhadores ribeirinhos tratará deste assédio da indústria das grandes barragens sobre outro conjunto da população que neste momento carece de aconselhamentos e esclarecimentos.

        Antes de iniciar o relato me parece útil lembrar Istvan Mészáros através de uma reflexão sobre particularismos locais e o mundo das necessidades.

         Mészáros quando fala das quantidades astronômicas de desperdício3 que o sistema do capital precisa produzir tem que lançar mão do entendimento das necessidades. Recorre, através de sua erudição, aos pré - clássicos da economia política e seu conteúdo moral: Mandeville diz que luxo é aquilo que supera as necessidades básicas - físicas, químicas, biológicas - que precisam ser satisfeitas para garantir a sobrevivência dos seres humanos. É uma definição rigorosa, elementar e se não a tivéssemos não saberíamos onde parar considerando a subjetividade humana expressa em seus desejos. O que se revela preocupante e com mais ênfase, entretanto, é que o sistema que Marx tão bem estudou não sabe onde parar. Sua estrutura não permite o estabelecimento de metas, o que na prática significaria pensar em um critério de parada, balizador de reconhecimento social de limites estruturais. O entendimento do crescimento parece se aproximar de uma cinemática sem tempo: há velocidades e posição, mas não uma lei temporal que possa expressar desacelerações. Prefere-se o céu como limite. As necessidades dos homens são inumeráveis, então aquilo que deve atendê-las também não possui limites. Desta tautologia, na qual o crescimento se torna um valor em si, também participam a energia, sua oferta expansiva e particularmente as hidrelétricas de grande porte no entorno e sobre as terras dos índios e ribeirinhos na Amazônia.

         Toquemos em ponto sensível: na possibilidade e realidade do aumento de obras de infra-estrutura em regiões aonde se localizam populações tradicionais, terras indígenas, unidades de conservação, nas quais aparecem e se mantém modos de vida distintos do modo de vida urbano, aparecem e se mantém distintas necessidades.

         Mais ainda, vivemos um momento em que o pensamento crítico e a explicitação de conflito estão desvalorizados ao passo que “ordem pública” e “autoridade” são enaltecidas como trilhos para o progresso. Mas isto pertence a trajetória, que se iniciou há tempos. O desvio de uma linha de progresso ainda é tido como um desvio da linha natural. Esta influência político-ideológica se cristaliza com o processo político republicano brasileiro e avança no processo de industrialização e de ocupação do território. Exemplo real desta influência e deste anseio de unidade se materializa tanto nos ideais republicanos brasileiros de origem, como nos ideais da revolução de 1930 e nas condutas de exploração sertanista no Brasil que avançou de encontro às áreas “inóspitas” e “virgens” do território brasileiro.4

 

Trajeto realizado por barco pelo rio Xingu partindo
de Altamira e chegando à Vila da Ressaca (A),
percorrendo cerca de meia Volta Grande e percurso
realizado por via terrestre pelo travessão 27 da
Transamazônica até a chegada na comunidade
São Francisco das Chagas (B).
Pontos em amarelo obtidos pela superposição de
coordenadas GPS sobre a imagem obtida no Google Earth. Observações de campo, novembro de 2008

          A idéia de proximidade e, simultaneamente, distanciamento é elemento para construir mecanismos de injustiça ambiental e mecanismos de legitimação e naturalização de ameaças: o que o cidadão de São Paulo, por exemplo, que deve estar se servindo da eletricidade, da iluminação artificial noturna e climatização, tem a ver com os “pobres diabos” que se opõem a grandes obras, utilizam a luz do dia e se banham nos rios frescos mais refrescados ainda pelas corredeiras?  

         Há vários exemplos empíricos que podem identificar os fluxos e sentidos de matéria e energia de dimensão planetária que predominam sobre os particularismos nacionais. Especificamente no caso brasileiro os aproveitamentos hidrelétricos, siderúrgicos e petrolíferos na Amazônia brasileira e nas demais Amazônias evidenciam e suportam o crescimento destes fluxos em escala planetária, considerando que os produtos eletro-intensivos e minerais são direcionados a além mar. No sentido contrário, cimento, turbinas, aço e geradores são direcionados para o meio da floresta. Assim foi como ocorreu com as usinas de Balbina e Tucurui.

         Tomada uma posição para a análise, escreve-se um breve relato de viagem feita à Volta Grande do Xingu trazendo impressões de alguém que não é de lá, vive no ambiente urbano.

 


A região da Volta Grande

         Nossa última presença na região se deu no período de 06 a 11 de novembro de 2008 junto às atividades do Encontro dos Povos da Volta Grande do Xingu, em duas localidades Vila da Ressaca: município de Senador José Porfírio e na comunidade São Francisco das Chagas, no município de Vitória do Xingu.

         Fui convidado para prestar assessoria a movimentos sociais e prestar esclarecimentos sobre conseqüências da implantação da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Fundamentalmente expus informações presentes no livro Tenotã – Mo5 e informações presentes no site da Eletronorte e uma compilação de slides antigos. Já havia estado por lá em maio no encontro Xingu Vivo e para Sempre. Como resultado segue um breve relato de observação participante.

 
         Estamos falando do nordeste do Pará. A Volta Grande tem seu início rio acima da sede do município de Altamira, uma das grandes cidades do Pará, (com 95.000 habitantes, maior município brasileiro, maior que o Estado do Acre) e tem seu final no trecho de rio que atende a balsa da transamazônica em Belo Monte do Pontal.  De Altamira até a chegada à ilha Pimental são uns 40 km. Este trecho de rio exibe em seu leito saliências rochosas de cores escuras e de tons mais claros evidenciando idades distintas das rochas, saliências que são mais visíveis no chamado verão (agosto, setembro, outubro época em que o rio está mais seco) e que se tornam mais freqüentes à medida que deixamos a ilha Pimental para trás e nos encaminhamos para fazer o cotovelo da Volta Grande. O trecho navegado não é virgem nem desabitado, há garimpos, roças e até uma ou outra casa de “veraneio”. Mais atrás das roças há áreas para pastagens.
 

Indígenas discutem Belo Monte. (Betânia, Altamira,  21-05- 2008)
Manifestação na Prainha ( 23-05-2008)
Fotos: Francisco Hernandez
 


         Envolvendo tudo isso, matas densas nas margens nas ilhas e ilhotas visíveis na imagem de satélite. As ilhotas antecedem, rio abaixo, imensos pedregais através dos quais escorre o rio formando encachoeiramentos de impossível navegação. A porção mais a leste da imagem de satélite permite ver de cima a dimensão deste monumento fluvial. Nosso destino primeiro é a Vila da Ressaca, situada “antes” destas cachoeiras das quais só temos fotos e relatos. Até chegar à Ressaca a voadeira faz muitas curvas que nos levam próximo das pedras e das raízes das árvores ribeirinhas, lembrando que estamos em novembro, com o rio baixo. A vila é corrotela de Garimpo que grosso modo fica no ombro da grande curva da Volta Grande. Se fizermos uma visita a publicações do Ministério de Minas e Energia, verificaremos a existência de um inventário hídrico e aurífero da região. Após deixarmos o barco as ruelas nos conduzem por um comércio local, de armazéns, botecos até chegar à escola local que também  funciona como centro comunitário além das atividades de educação fundamental, infantil e alfabetização de jovens e adultos. Quando chegamos estava lá, dispensadas das atividades normais, a criançada local. Mais tarde chegariam os adultos, daquela localidade  e de outras cruzando o rio,  ribeirinhos das imediações do rio Bacajá e algumas lideranças indígenas da Volta Grande.

        Para chegar à comunidade São Francisco das Chagas o roteiro e paisagem são outros, mas também tivemos outra aventurosa jornada. Domingo, saímos de Kombi de a Altamira, compramos óleo diesel para alimentar o gerador daquela localidade, e nos encaminhamos pela Transamazônica até o travessão do Km 27. Neste cruzamento há apenas uma indicação, acampamento da Eletronorte. Assim adentramos na porção terrestre envolta pela Volta Grande. Longos trechos de descida que mais se parece uma região serrana, nada devendo aos mares de Minas. Nela vemos roças de cacau, fazendões, pequenas propriedades de migrantes que vieram para próximo de Altamira junto com o sonho da “grande estrada”. Vemos placas da Eletronorte sinalizando altitudes e longitudes com uma indicação de algo que sequer existe - “UHE Belo Monte”. Na comunidade o povo está mobilizado esperando a nossa chegada (constituíamos um grupo heterogêneo: representantes da CPT e CIMI, duas mulheres lideres do Movimento pelo desenvolvimento da Transamazônica Xingu - MDTX, um engenheiro, um antropólogo, uma socióloga e um geógrafo). Rivaliza conosco um jogo da fase final do campeonato brasileiro, sendo o destaque no bar da comunidade. Sob forte calor fizemos uma reunião, agora, com pequenos agricultores, pescadores do interior da Volta Grande, moradores das áreas dos numerosos igarapés, cursos d’água que teriam sua dinâmica alterada (assim como também se alterariam os modos de vida de quem os utiliza) com a construção de um total de cinco represas.

 
         Podemos entender as populações ribeirinhas da Volta Grande do Xingu como populações ou sub-populações, já que existem diferenças entre elas, e que tem um conjunto de necessidades socialmente constituídas, por sua história, pela materialidade que as encerra. Este conjunto de necessidades é satisfeito pela simbologia gerada com os tempos, pelos recursos naturais como os rios, as terras ribeirinhas, terras agricultáveis, os garimpos, o próprio rio para o transporte, os grupos locais que consomem o que é produzido de um lado e de outro, ou mesmo no meio do rio nas belas ilhas que lá existem. Este conjunto de necessidades se apresenta como necessárias porque efetivamente se mantém e se reproduzem ao longo do tempo e permanecem vigorosas, necessidades que interagem com o meio urbano mais próximo, o de Altamira.

O existente e o planejado: transformação da Volta Grande
 

         Um passeio pelo comércio local da sede do município de Altamira pode evidenciar a permanência e efetividade destas relações sociais e econômicas. Não é um comércio como aquele observado no centro das grandes capitais e grandes cidades, mas é um comércio consistente e perene, que não apresenta fechamento de lojas. Uma economia como aquela presente nas cidades médias do nordeste.  O cacau é trazido das roças. O peixe é comercializado e chega de barco de vários pontos dos rios. O comércio e comunicação mais rápidos são feitos por voadeiras As redes para dormir são utilizadas, fabricadas, vendidas Os tijolos são vendidos e fabricados mais no entorno local, produzido pelas olarias, também próximas. A transamazônica e travessões vicinais são utilizados para alcançar os interiores que se aproximam do rio Xingu. Há um aeroporto local no qual aviões de médio porte se comunicam com outros aeroportos principais e próximos como Belém, Santarém e Marabá. São companhias pequenas que fazem o transporte da região norte - fronteiriça. Não obstante a constatação de uma perenidade no comércio é possível que a estrutura do comércio local possa sucumbir diante de uma concorrência oriunda de fora da região estimulada pelo aparecimento das empreiteiras, canteiros de obras já que existem as conexões comerciais própria das empreiteiras e considerando que o comércio local não tem uma escala de comercialização de grande porte.

         Há décadas que se comenta e se estabelecem propósitos de aproveitamento hidrelétrico do rio Xingu. Há adesão de boa parte do chamado poder local da região aos empreendimentos hidrelétricos.
 

'Belo Monte é Eletromorte' nos muros de Altamira
Foto: Francisco Hernandez

         Existe um consórcio de municípios pela construção de Belo Monte que mantém um escritório de divulgação do projeto, programa atividades de divulgação, mantém uma maquete da obra, mantém, funcionários que oferecem folders e comentários gerais sobre a obra. A idéia de progresso e desenvolvimento está associada ao projeto e com ele viriam empregos, estradas asfaltadas, a prosperidade e o rompimento com o “isolamento” geográfico. O escritório e centro cultural da Eletronorte, a principal protagonista e entusiasta há décadas da obra, se mantém presente na linha de frente desta propaganda propiciando atividades culturais com ares de modernidade: exposições, stands e iluminação que bem se parecem com aqueles observados em centros culturais dos grandes centros urbanos. 

 

        O movimento pró-hidrelétrica divulga, sem detalhamento, planos de inserção regional durante o período de construção da obra e após sua finalização ao passo que muros exibem posicionamentos contrários - Belo Monte é Eletromorte! - e o município abriga encontros de índios, ribeirinhos, ambientalistas, acadêmicos, militantes pastorais da igreja.

         Mencionemos que a região já foi “alcançada” por projetos oficiais como a chegada da Transamazônica. A proposta de asfaltamento de trechos dela e de alguns travessões localizados no “coração da obra” tem adesão por parte da população, empresários, mandantes locais, empresas de comunicação e comerciantes. A contraposição entre o “atraso” de uma região carente de serviços públicos na qual aparece uma sensação de isolamento geográfico e a possibilidade do aparecimento do “progresso” é algo propagandeado como mudança positiva.

         De certa maneira é esquecido o fato de que estes benefícios de implantes de serviços públicos deveriam independer da construção ou não dessa obra, lembrando que Altamira é uma das principais cidades do Pará, o maior município do Brasil (maior que o Acre) com cerca de 95.000 habitantes, abrigando florestas nacionais e várias terras indígenas demarcadas. Altamira apesar das dimensões físicas, antropológicas e de biodiversidade “começaria” a figurar    no mapa apenas se esta obra fosse concretizada, como contribuição a um progresso cujos benefícios locais não são claramente perceptíveis.

          A chegada da proposta de uma grande obra conflita com o que já existe na região e apresenta possibilidades de modificação drástica da dinâmica local. É uma obra de porte, com forte intervenção sobre o território natural e sobre aquele construído pelo homem. Pode trazer aquilo que é conhecido como a intervenção da indústria barrageira, os canteiros de obras, a forte migração de operários, a especulação fundiária, aumento do transporte de equipamentos, cimento, pedra, ferro, tráfego aéreo, prostituição. Não neguemos a história das grandes hidrelétricas na Amazônia e em outros cantos.

 
         Um mantra parece estabelecer-se no discurso oficial: pelo bem de uma população “maior”, uma população “menor” deve abrir mão do que tem, de meios estabelecidos na condução de sua vida. Este é o recado propagandeado oficialmente: minorias da população de agricultores e comunidades ribeirinhas teriam que abrir mão de seus modos de vida, e isto se daria ao serem deslocados, alagados ou atingidos pela construção da represa, paredões das barragens, construção de diques, movimentação das terras, construção do canteiro das obras. Os propósitos locais existentes, mencionados há pouco seriam modificados. As suas necessidades históricas seriam modificadas em função de outras necessidades que seriam satisfeitas e ampliadas pela geração de mais energia e que intensifica o uso dos recursos naturais e que manifestam o conflito no seu uso: os rios e terras ribeirinhas seriam utilizados para acumular água e posteriormente converter energia mecânica em energia elétrica. Regiões de roças de cacau serviriam para acomodar um total de 5 reservatórios. Igarapés ou trechos deles seriam canalizados e outros seriam “barrados” pelos paredões de diques e dos próprios canais. As comunidades da Volta Grande do Xingu a exemplo da Vila da Ressaca teriam sua dinâmica modificada pela “secura do rio” à jusante do paredão principal. Estas são algumas das conseqüências possíveis.



Vila da Ressaca
 

         Há uma complexa diferenciação social na Volta Grande. Engloba comunidades indígenas, ribeirinhos, camponeses, grupos de garimpeiros, índios no meio urbano, migrantes que se tornaram pequenos e médios proprietários de terra. Diante desta diferenciação as conseqüências também são diferenciadas tanto quanto as percepções sobre riscos e o temor sobre incertezas do futuro. 

        A chegada de uma grande obra ou projeto, como preferimos utilizar, traz consigo também a idéia de que as populações locais deveriam abrir mão do estilo ou modo de vida que tem em função da população mais ampla, mais conectada com a idéia de progresso e desenvolvimento. Seria justo que parcelas menores da população abrissem mão, não de suas vidas, mas de aspectos (muitas vezes fundamentais) de sua vida.  Este é a linha condutora do assédio. Algo muito  preocupante se notou nesta ida à região da Volta Grande do Xingu: o desconhecimento geral sobre possíveis conseqüências da obra. Sintetizamos algumas  impressões:

  1. Primeiro ela aparece como algo inexorável. Como uma batalha descomunal entre a Eletronorte, como proponente das obras e de outro lado a população que se coloca reticente. Foi comum ouvirmos posicionamentos como: “se fizermos uma votação, claro, todos seríamos contra a obra, mas isto não vai ser resolvido aqui...”
  2. As populações manifestam que tem pouca informação sobre a obra e dimensões das conseqüências para as localidades.  Por exemplo, na comunidade da Vila da Ressaca não tinham a dimensão que o transporte entre Altamira e a Vila, algo cotidiano e fundamental, seria interrompido. Também não tinham conhecimento de que não estariam englobados na “categoria” de atingidos
  3. Não tinham a dimensão de que uma obra desse porte já havia sido abandonada por um conjunto de ações de movimentos de ribeirinhos, indígenas e ONGs em 1989 (antigo projeto de Kararaô)
  4. Recebem visitas freqüentes de “gente da Eletronorte” que informa pouco sobre o que pode acontecer, mas impõem possibilidades como fatos consumados do tipo: a barragem vai ser construída aqui, o dique ali, providencie a regularização de sua terra, pois só assim poderá ser indenizado.
  5. A polêmica técnica não é comentada (energia firme insuficiente e inconsistente coma propaganda da potência instalada). Trata-se de uma confusão terminológica que apresenta energia firme como potência instalada e no final das contas a obra se tornaria inviável economicamente e tecnicamente já que a vazão natural do rio não supre a energia firme propagandeada nos números do estudo de viabilidade
  6. As populações não sabem se serão indenizadas, para onde irão, quem poderá ser indenizado, quem não poderá
  7. Há um desequilíbrio quanto aos meios de divulgação: Enquanto ONGs e movimentos contrários à obra têm uma imensa dificuldade de articular reuniões, divulgar seus posicionamentos, ter acesso aos meios de comunicação, elaborar mapas próprios (que são muito importantes para o entendimento da dinâmica regional), os proponentes da obra e seus serviços de consultoria dispõem de recursos suficientes para varrer longos percursos nos rios e nas estradas sem grandes entreveros, patrocinar eventos públicos, aparecer com destaque na mídia
  8. Há, pelo que pude notar, uma estigmatização das populações indígenas que simultaneamente são vistas com curiosidade pelos habitantes da cidade, mas também com desconfiança. Presenciei (em maio de 2008) uma agressão gratuita a um índio que comigo e com o casal Cunninghan6 conversava na orla de Altamira por um jovem embriagado que lhe desferiu uma seqüência de bofetões. Agressões deste tipo são comentadas por algumas pessoas como freqüentes.
  9. Parece ser identificável uma segmentação das discussões: as terras indígenas são tratadas de uma forma pelos empreendedores, os ribeirinhos de outra e os habitantes da cidade de outra. No nosso entendimento isso possibilita a desagregação de uma visão de conjunto das conseqüências da obra e da dinâmica local e trabalha no sentido de enfraquecer uma aliança entre os grupos seja no aspecto de discutir e caracterizar quem são potencialmente atingidos, seja na  compartimentaçãso das discussões quanto a indenizações e problemas fundiários mais gerais da região.

         Desta experiência “relato” surgem constatações, pessoais e coletivas de que existe carga  desproporcional dos efeitos: a parcela humana que abre mão de seus modos de vida por “um interesse maior” da sociedade tem seus modos de vida drasticamente alterados, podem ter deslocamentos compulsórios para regiões urbanas sem condições adequadas (a história da hidreletricidade brasileira e suas conseqüências sociais demonstra estas possibilidades como probabilidades altas).

         Uma outra desproporcionalidade é clara, evidente. Se manifesta nos recursos políticos que  os variados grupos  e interesses dispôem para satisfazer seu conjunto de necessidades. Um mosaico de mecanismos seletivos aprece: como uma opção é construída em detrimento de outra; o consórcio de municípios como posição institucional; a segmentação social; ONGs e movimentos sociais pelo protagonismo de oposição ao empreendimento e fundalmentalmente o assédio por uma empresa com muitos recursos políticos, muita estrutura administrativa e de assessoria e um histórico de presença na região através da implantação de outros projetos hidrelétricos na Amazônia.

         A impressão residual em forma de dúvida não é otimista: torna-se irreconciliável o encontro do homem com outro homem, necessidade essencial que é puro reconhecimento e possibilidade da permanência da condição humana?

 

 

  1. Citação em  Porto-Gonçalves, Carlos. Walter “Quem nasce no Brasil é o quê mesmo?” Artigo, Agência Carta maior  Análise & Opinião Sexta-Feira, 13 de Junho de 2008.
  2. Sobre a tragédia que se abateu sobre Belo Monte, além da referência à obra principal de Euclides da Cunha indicamos texto sintético e denso de Walnice Nogueira Galvão,  O império do Belo Monte - Vida e Morte de Canudos. Ed fundação Perseu Abramo. São Paulo, SP,  1a edição 2001
  3. Capítulo 15: The decreasing rate of utilization under capitalism (pgs  ) na 1a edição(1995) de Beyond Capital ou A taxa de utilização decrescente no capitalismo (págs 634 a 659), da edição Brasileira de Para Além do Capital, Editado pela Boitempo e pela Editora da Unicamp, 2002. O autor cita Bernard Mandeville, filósofo social  do séc XVII e XVIII,  famoso por sua satírica Fábula das Abelhas: vícios privados, benefícios públicos dentre outros escritos.
  4. Esta afirmação se ampara no conjunto de documentos apresentados na obra A Segunda República (1930 – 1937) de 1978 e A Terceira República de 1982 ambas de Edgard Carone, mais especificamente na terceira parte – Classes Sociais – (p. 210-219) e – A constituição de 1937 respectivamente nas obras citadas. Em dois artigos específicos sobre o tema O Positivismo e a Geografia em Rondon de José Carlos G Camargo e Fabrício F. de Lima (2005) publicado na revista Estudos Geográficos da UNESP Rio Claro, no texto AARÃO REIS: Pensamento econômico, social e político de inspiração positivista de Henderson Marques Lopes (FCEJV – Instituto Vianna Júnior) revista Eletrônica de Economia Março de 2003 que em conjunto expõem o posicionamento sobre a expansão desta ideologia sobre o território e o Dossiê Marechal Rondon: O descobridor de um outro Brasil. Revista de História da Biblioteca Nacional No 11 Agosto de 2006 que traz o papel mediador do sertanista e enfatiza a disposição de avanço da técnica sobre a natureza.
  5. Um esforço no sentido de entender as consequências dos projetos de barragens no Xingu desde décadas é desenvolvido em SEVÁ, A. Oswaldo F°(org.).Tenotã-Mõ Alertas sobre as conseqüências dos projetos hidrelétricos no rio Xingu. Publicação IRN - Internacional Rivers Network.1ª Edição 2005.
  6. Patrick e Sue Cunningham.  Casal inglês que percorreu os 2,7 mil quilômetros do Rio Xingu,  e visitou 48 aldeias entre o Mato Grosso e o Pará no ano de 2007